Boa gestão pode manter produtor rural competitivo no agronegócio moderno

Pequeno produtor precisa fazer um controle minucioso de custos, a fim de assegurar o resultado de sua atividade

Receitas x Despesas

Receitas x Despesas

SÃO PAULO – “Os hectares mais importantes da propriedade rural são, na verdade, os quatro, cinco metros quadrados do escritório da fazenda.” A frase, proferida pelo ex-ministro da Agricultura, Luís Carlos Guedes Pinto, em recente evento na Esalq-USP, dá a exata dimensão da importância de uma boa gestão do ponto de vista financeiro, de negócios, de mercado para o produtor rural que almeja se manter competitivo no agronegócio moderno.

E a orientação para uma administração na “ponta do lápis” se torna ainda mais relevante para o pequeno produtor, que exatamente por não trabalhar sob a ótica de um negócio de escala – no qual a rentabilidade está ancorada na comercialização de grandes volumes – precisa fazer um controle minucioso de custos, a fim de assegurar o resultado de sua atividade.

De acordo com Fábio Emmanuel Braz Brass, consultor de agronegócios do Sebrae, o empresário rural que trabalha com produtos que podem ser armazenados, como, por exemplo, grãos, tem mais autonomia para realizar a operação de venda no momento que for mais vantajoso financeira ou estrategicamente. “Já não é o caso, por exemplo, do pecuarista que trabalha com leite, um produto bem mais perecível, que exige venda rápida. Este produtor precisa focar ainda mais no controle de custos”, ressalta Brass.

Outra recomendação do consultor do Sebrae é que o produtor também monitore de perto o rendimento de sua produção, fazendo diagnósticos rotineiros do retorno de investimento ao comparar recursos aplicados e resultado obtido. “É preciso medir sempre”, acentua.

Diferenciação

Segundo Brass, o pequeno produtor tem que investir cada vez mais em diferenciação de processos, produtos ou formas de comercialização, para se manter competitivo. “Ele tem que agregar valor em todas as frentes.”

De acordo com o especialista do Sebrae, mesmo o pequeno produtor que atua com commodities pode “despadronizar” seu negócio ao inovar nas operações de compra e venda por meio de grupos de aquisição de insumos e de comercialização da produção. “O cooperativismo é um caminho para isso.”

Brass destaca, ainda, que neste desafio da “descomoditização”, o pequeno produtor tem como alternativas investir em nichos de mercado, como, por exemplo, orgânicos, bem como certificações de respeito socioambiental, comércio justo e selos de identificação geográfica. “Desta forma, ele já está qualificando o seu negócio com ações que vão além da porteira, trabalhando conceitos de marketing e marcas, com foco no consumidor.”

Fonte: Infomoney

Programa investe R$ 18,6 milhões em assistência técnica a produtores

Apoio do Mapa objetiva melhoria da qualidade do produto e da gestão das propriedades

 

Leite Suadavel

O Programa Leite Saudável está selecionando 3.620 propriedades rurais nos estados de Goiás, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os pecuaristas dessas unidades de produção de leite vão receber assistência técnica e gerencial por 24 meses para que possam melhorar ainda mais a gestão de seus negócios e a qualidade do produto. As ações da primeira fase do programa, que prevê cursos e oficinais de capacitação, estão sendo financiadas com o repasse de R$ 18,6 milhões do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) ao Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e à Cooperativa para o Desenvolvimento e Inovação da Atividade Leiteira (Cooperideal), localizada em Londrina (PR).

De acordo com a coordenação do programa, também houve atualização dos dados do serviço de inspeção do leite. Em um período de seis meses, o número de análises do produto pela Rede Brasileira de Laboratórios de Qualidade do Leite (RQBL) passou de 3 milhões para 47 milhões.

Além disso, o Mapa e a Embrapa começaram a desenvolver o Sistema de Inteligência para a Gestão da Qualidade do Leite. Quando estiver implantado, o sistema o governo poderá ter o diagnóstico completo da situação do leite no Brasil, mapeando as regiões que se encontram fora dos requisitos de qualidade. Isso permitirá direcionar as políticas públicas de incentivo à cadeia produtiva e as ações de fiscalização.

Outro incentivo do governo às propriedades leiteiras foi a liberação de créditos presumidos do PIS/Cofins. O Mapa está ajudando os produtores a elaborar projetos que buscam essa desoneração. Nos primeiros seis meses, 13 projetos foram aprovados, beneficiando 7 mil produtores, que deverão investir em melhoramento genético, educação sanitária e melhoria da qualidade do leite.

Mais competitividade

Nos últimos seis meses, o Mapa também trabalhou para ampliar mercado às exportações de laticínios. A meta é triplicar o volume de embarques de lácteos para os países com maior potencial de importação, como a Rússia e a China.

Um dos resultados desse esforço foi a habilitação de 23 estabelecimentos de produtos lácteos para negociar com a Rússia. Em 2015, o Brasil exportou 182 toneladas de manteiga e 248 toneladas de queijo para aquele mercado. Neste primeiro trimestre, o volume de embarques saltou para 54 toneladas de manteiga e 189 toneladas de queijo.

O Brasil também está avançando nas negociações com a China, com a atualização do certificado sanitário internacional, pré-requisito para abertura daquele mercado.

Pequenas agroindústrias

Outra conquista foi a elaboração da proposta de regulamentação dos procedimentos, das instalações e dos equipamentos para as pequenas agroindústrias, que elaboram produtos lácteos, como, por exemplo, de queijos artesanais. O Mapa flexibilizou as regras gerais para as pequenas agroindústrias, que tinham que cumprir normas incompatíveis com suas atividades e seu porte físico.

O Programa Leite Saudável, lançado em dezembro de 2015 pela ministra Kátia Abreu, tem sete eixos de atuação: assistência técnica gerencial, melhoramento genético, política agrícola, sanidade animal, qualidade do leite, marco regulatório e ampliação de mercados.

Fonte: Destaque Rural

Minha fazenda dá lucro? E quanto pode me pagar?

Consultor ensina a fazer levantamento de custos na propriedade e calcular pro labore do proprietário

Receitas x Despesas

Receitas x Despesas

A chamada “conta de padaria”, em que apenas se subtraem as despesas da receita, está longe de atender às necessidades de gestão econômica de um empreendimento, qualquer que seja; e muito menos determinar qual a sua rentabilidade e o valor do pro labore do proprietário. No caso de uma fazenda de pecuária, por exemplo, muitos fatores interferem no resultado. “É preciso ir mais fundo, não dá para parar por aí”, diz Dalmo Machado, zootecnista e co-fundador da Suporte Consultoria Pecuária. Em suas andanças por propriedades Brasil afora, ele conta que não raro precisa partir das bases para organizar as finanças das fazendas.

Nesses casos, seu primeiro passo é definir de que tipo de negócio pecuário está tratando. “Se for uma fazenda de cria, por exemplo, eu sei que a saída de produtos se dá no momento da desmama. Sei que há venda de machos e de excedente de fêmeas, e que o produtor fica com parte delas para reposição de matrizes”, diz. Com um modelo claro na cabeça, é viável fazer planejamentos de longo prazo e propor desvios na rota. “O modelo não precisa ser engessado. Uma fazenda de cria pode vender matrizes se o preço desses animais subir. O que não dá é para mudar de estratégia todo ano”, afirma o zootecnista.

Tendo nítida qual a sua atividade, o pecuarista deve fazer um levantamento patrimonial, que nada mais é do que uma relação de todos os bens da fazenda e seu respectivo valor, à exceção da terra. Entram aí precificação de benfeitorias: casas, galpões, curral, cocho – tudo que for infraestrutura. De itens com motor: caminhonete, moto, trator, máquinas em geral. De implementos: roçadeira, guincho, grade. De equipamentos: motosserra, jogo de ferramentas, freezer, geladeira, ar-condicionado. “A venda desse patrimônio geraria um valor X e é sobre ele que se aplicam fórmulas para calcular a manutenção e depreciação”, diz Dalmo. Ambos os valores devem, obrigatoriamente, entrar no custo anual das fazendas, sendo recomendado ao produtor com menos familiaridade com o assunto buscar assistência técnica.

“A depreciação, eu costumo dizer, é um valor fantasma que bate à porta quando você precisa trocar aquele trator velho”, lembra Dalmo, e ele explica por que.“Vamos supor que eu comprei uma máquina lá atrás por R$ 100 mil. Hoje, com dez anos de uso, ela vale 40% disso, vale 40 mil. Isso quer dizer que a cada ano eu deveria ter economizado R$ 6 mil para ter os R$ 60 mil que se perderam com a desvalorização”. Em resumo, a depreciação é quanto você precisa poupar para restituir o bem ao final de sua vida útil. O exemplo é ilustrativo, mas ajuda a entender por que a depreciação é uma peça chave no levantamento de custos da propriedade. Somada a ela vem, claro, a manutenção – gasto que faz com que os bens se conservem até o momento da troca. Atualizações nos valores dos bens podem ser feitas ao longo do tempo para corrigir preços e acompanhar o desenvolvimento do mercado.

Feito o levantamento patrimonial e aplicado sobre ele gastos com depreciação e manutenção, é preciso checar outros custos, como os variáveis que, por sua vez, estão ligados à atividade pecuária em si e mudam conforme o tamanho do rebanho. A esses custos é dado o nome de desembolsos (as famosas “despesas”). Abaixo, o que não pode ficar de fora da sua planilha de controle:

– Impostos: considerando que o produtor seja pessoa física, os mais comuns são o Imposto Sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) e o Imposto de Renda (IR). De acordo com o estado, podem haver outros.

Sendo pessoa jurídica, há ainda encargos diferentes, como a Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins).

– Assessoria: se enquadram neste item a prestação de serviços esporádicos por médicos-veterinários, agrônomos e zootecnistas. Escritórios de contabilidade, mais comumente, e de advocacia, quando necessário, também estão sob o mesmo chapéu.

– Custos com infraestrutura: abarcam contas com energia, telefone, internet, combustível e também gastos da sede (com alimentação, limpeza).

– Suplementação do rebanho: dependendo da prática de cada fazenda, pode corresponder a custos com sal mineral, proteico-energético ou ração concentrada.

– Gastos com a pastagem: no geral, adubação e limpeza.

– Sanidade: dividido em três, contempla gastos com vacinas, vermífugos e medicamentos de rotina.

– Reprodução (item levantado em propriedades de cria, não se aplica a fazendas de recria e engorda): agrega custos com reposição de touros, inseminação artificial, geralmente anuais, sêmen e hormônios.

– Mão de obra/Recursos Humanos: são os custos com folha de pagamento, ou seja, com profissionais registrados.

Nesse tópico não entram gastos com a figura do empreiteiro, que tem seus próprios funcionários e geralmente presta serviço de manutenção ao produtor. “Quando conserta uma cerca, o pecuarista que calculou depreciação e manutenção tem reservado aí não só o valor do material, mas também da mão de obra, que está prevista no cálculo”, explica Dalmo. Daí a importância de não registrar esse custo uma segunda vez, para que não fique duplicado.

– Pro labore: último item da lista, é a margem líquida anual que a fazenda pode gerar para o proprietário. Para obtê-la basta subtrair da receita o custo operacional total (depreciação + manutenção + desembolsos) anuais. Dividindo o valor final por 12, o produtor chega ao teto para o seu pro labore mensal. Obviamente, parte desse recurso será reinvestido na propriedade.

“Com todos esses dados, é possível que o pecuarista note que tem maquinário de mais considerando o tamanho do seu rebanho. Ou chegue à conclusão de que vale a pena terceirizar uma atividade a adquirir implementos para sua realização”, afirma Dalmo. Diagnóstico técnico e econômico, o levantamento de custos tem por objetivo fornecer um raio-X das finanças da fazenda e ajudar a identificar problemas que passam despercebidos no dia a dia. O resultado é a melhoria da gestão, seja reduzindo gastos desnecessários ou direcionando estrategicamente os recursos.

 

Fonte: Portal DBO

Gerenciamento financeiro da Propriedade Leiteira

A economia brasileira vive um momento de incerteza, muito se fala em crise e a atividade leiteira também está sendo afetada através da elevação dos custos de produção. É percebido que os custos fixos estão se elevando, sendo que, em algumas propriedades esses custos estão sendo superiores aos custos de alimentação, visto que no passado se falava em o maior custo na produção de leite era a alimentação.

Toda crise pode trazer oportunidades. Cabe ao gestor do negócio superar as dificuldades, tornar-se mais eficiente, cortar gastos desnecessários, eliminar as incompetências e perpetuar o negócio.

Toda propriedade leiteira deve ser administrada como uma empresa, pois o capital aplicado é alto e a remuneração deste capital nem sempre é satisfatória.

O gerenciamento é muito importante, principalmente quando a propriedade rural desempenha mais de uma atividade. É muito importante separar o real custo e a real lucratividade de cada atividade desenvolvida.

A produção de leite precisa, cada vez mais, ser profissionalizada, pois é sabido que as margens de lucro da atividade tem sido historicamente menores. O mercado dita o preço da venda do leite e de compra dos insumos, resta, então, ao produtor ser eficiente no gerenciamento interno da propriedade. Dentro desse contexto, adotar um sistema de avaliação de desempenho é fundamental.

Em um sistema de gerenciamento de uma propriedade leiteira, muitas são as variáveis a serem administradas, porém, necessárias. Vários índices devem ser avaliados.

Índices Zootécnicos: produção total de leite, produção individual de leite, produção das vacas de primeira lactação, idade do primeiro parto, distribuição dos partos, tempo de lactação, percentual de vacas secas, taxa de prenhes, numero de inseminação por prenhes, retorno ao cio, reposição de animais, descartes, taxa de mortalidade, numero de animais jovens, consumo de alimento concentrado e volumoso, entre outros.

Índices Econômicos: Remuneração do capital, depreciação, juros, investimentos, manutenção, reposição de equipamentos, energia elétrica, mão-de-obra, lucratividade, crescimento, perdas, entre outros.

A avaliação desses índices é muito importante para definir se a propriedade está equilibrada, pois muitas vezes falta dinheiro no final do mês, porque tem um setor da atividade que está custando mais que o recomendado.

É muito importante traçar metas e saber aonde cada propriedade quer chegar. O gerenciamento serve para dar subsidio na tomada de decisões e avaliar se as metas foram realizadas e quando não realizadas, fornecer orientação para um novo direcionamento das metas e entender porque não se atingiu o objetivo.

Administradores que implantam um sistema de gerenciamento em suas propriedades, passam a ver a atividade de outro ângulo, percebem que nem sempre o preço do leite e dos insumos são responsáveis pela baixa rentabilidade e a ineficiência em algum ponto leva parte dos lucros.

 

Jones Fernando Gay

Médico Veterinário

 

Fonte: Folha Agrícola – Fevereiro 2016

O novo empresário rural e o desafio da gestão do negócio

Provável sucessor de um negócio rural: alguma vez você já parou para pensar como seria herdar a gestão de um negócio familiar? O que você faria para dar continuidade ao negócio que o pai construiu e fez crescer? Seguiria fazendo tudo da mesma forma? Isso seria suficiente para levá-lo às próximas gerações?

Absorver a cultura, os valores e o amor pelo negócio criado pelo pai é essencial na etapa da transição. Entretanto, é necessário ter a percepção de que o que funcionou no ano passado até pode funcionar novamente neste ano, mas talvez não funcione no próximo. Assim, o que deu muito certo até hoje na gestão do pai, pode não ser o melhor caminho para os próximos anos. Portanto, é papel do gestor, além de reconhecer todas as coisas boas que ainda podem ser mantidas, repensar decisões anteriormente tomadas, avaliando os melhores caminhos.

Todo o gestor de negócio rural precisa compreender o que é o exercício da gestão. Ele deve estar sempre atento às mudanças de condições nas áreas econômicas, tecnológicas ou climáticas, repensando decisões o tempo todo. Repensar decisões e traçar novos caminhos é um exercício diário da gestão.

Sabe-se que, de forma geral, grande parte do tempo de um gestor é gasto com trabalhos e tarefas de rotinas e, o diferencial está no tempo investido em planejamento.

Podemos classificar as tomadas de decisão em dois tipos: as táticas e as estratégicas. As decisões táticas são aquelas pontuais, de curto prazo, que geralmente dispõe de urgência e são tomadas para que o negócio continue andando. Já as decisões estratégicas são de longo prazo, exigem planejamento e são tomadas para que o negócio prospere.

Nessa linha, podemos dizer que agir de forma tática significa fazer algo corretamente, com eficiência. Já atuar estrategicamente busca a eficácia, fazendo a coisa certa. Em outras palavras, a primeira faz com que o negócio continue andando e a segunda faz com que o negócio cresça e se desenvolva.

Decidir o preço e o momento certo para a venda de um produto são exemplos clássicos de uma decisão tática. Escolher o momento de plantar, colher e/ou vender também são exemplos de decisões táticas, no entanto, mais complexas, pois necessitam de um pouco mais de planejamento.

Traçar regras para as próximas gerações, através de um protocolo familiar; investir no gerenciamento de dados contábeis e financeiros; implantar um processo de governança coorporativa e a sucessão em vida são exemplos de decisões estratégicas. Nestes casos, o planejamento é fundamental. Planejar é buscar uma linha de ação, estabelecendo metas a curto e/ou a longo prazo, tendo “jogo de cintura” e percepção de que às vezes os rumos iniciais podem ser alterados por uma mudança de cenário

Em suma, planejamento não é um ato fixo, imóvel, e sim um conjunto de ações variáveis, que, ainda assim, deve seguir uma sequência lógica para ser eficaz:

1º passo: Identificação da mudança de cenário ou oportunidade de melhoria

2º passo: Traçar uma linha de ação

3º passo: Estabelecer metas de curto e de longo prazo

4º passo: Colocar em prática o que foi planejado

5º passo: Monitorar, acompanhar o andamento

6º passo: Ajustar o que for preciso

7º passo: Voltar ao primeiro passo

Nota-se que o planejamento é periódico. Após o ajuste, surge uma nova ideia, que é novamente colocada em prática, devendo ser sempre acompanhada e ajustada quando o gestor perceber a necessidade.

Diante dessa realidade, o acompanhamento e assessoramento de profissionais multidisciplinares e capacitados nas mais diversas áreas de atuação é de grande valor para o gestor, seja ele o pai preocupado com a sucessão do negócio ou o filho sucessor que assumirá o desafio diário da gestão do negócio rural.

 

Fonte: Destaque Rural

No Brasil, desenvolvimento da pecuária leiteira depende mais de gestão do que de novas tecnologias

O avanço tecnológico proporcionou à atividade leiteira grandes avanços. Só nas últimas quatro décadas, a produção cresceu 185% no Brasil. Porém, este desenvolvimento não foi acompanhado por um avanço nas práticas de gestão da propriedade

 

Animais no campo

O coordenador técnico do Educampo, Christiano Nascif, alerta que só é possível obter lucro de forma sustentável com gestão. A observação foi feita durante o 2º Simpósio Regional de Produção de Silagem de Milho e Sorgo, realizado no campo experimental da Embrapa em Coronel Pacheco – MG.

Os latifúndios com grandes benfeitorias, baixo aproveitamento das áreas, animais grandes e robustos com baixa produtividade são parte de um cenário em desuso. A atividade hoje adota áreas menores e mais produtivas, animais de genética melhorada, capazes de responder com uma produção maior em volume e melhor em qualidade. Apesar de tantas mudanças, a gestão continua negligenciada e pouco profissional. “Em média, o produtor de leite mineiro tem patrimônio de 700 mil reais investido na propriedade para gerar 200 litros de leite por dia. Essa proporção é impensável em uma padaria, uma farmácia e mesmo em outras atividades rurais, como a suinocultura. Não é compatível.”

O patrimônio reflete investimentos em tecnologias para as quais o produtor não está preparado. “Isso é queimar a tecnologia. Nem sempre a implantação de uma boa tecnologia compensa economicamente. Avaliar quando será compensador é gestão. É preciso dar um passo de cada vez”, sentencia Nascif, que explica: “Aumentar a produtividade por hectare e reduzir o intervalo de partos são objetivos necessários para aumentar a eficiência tecnológica. Isto significa conquistar resultados meio. Mas só serão efetivos se contribuírem para o alcance do resultado fim, ou seja: aumentar a eficiência econômica, fazer o produtor ganhar mais dinheiro”.

A gestão da propriedade passa pela coleta rotineira de informações. Tudo deve ser organizado em um banco de dados atualizado. Este controle pode ser feito no papel, em planilhas no computador ou em softwares de gerenciamento; tanto faz, desde que seja organizado e atualizado frequentemente. Assim, produtor e técnico de assistência têm subsídios para interpretar os dados que refletem o custo de produção para, então, planejar as ações de melhoria e gerenciar os resultados.

O coordenador do Educampo acredita que quem não planeja, fracassa. É preciso ter planejamento para ser mais eficiente, o que quer dizer produzir mais com menos. Sobre a interpretação dos dados para traçar o plano de ações, ele aconselha: “Quando o produtor intensifica a produção, reduz a margem de lucro por litro, mas aumenta o lucro total. Por isso deve usar indicadores com escalas maiores”.

Numa avaliação dos dados dos participantes do programa Educampo no período de outubro de 2014 a setembro de 2015, seis custos de produção representaram quase 80% do custo total. São eles: concentrados, mão de obra familiar (estimando uma remuneração compatível com o preço de mercado na atividade específica de cada um), volumosos, remunerações, depreciações e mão de obra. Baseado nesta análise, Nascif conclui: “Para saber onde cortar, tem que conhecer o peso de cada custo no custo total. Não adianta cortar itens de baixo impacto”.

O evento

O 2º Simpósio Regional de Produção de Silagem de Milho e Sorgo é realizado pela Embrapa (Gado de Leite, Milho e Sorgo e Produtos e Mercados / Escritório de Sete Lagoas) em parceria com a Riber KWS Sementes. A edição foi realizada no Campo Experimental José Henrique Bruschi, da Embrapa Gado Leite, com mais de 100 técnicos e produtores participando presencialmente. O evento também foi transmitido ao vivo pela rede social temática www.repileite.com.br. Quase 600 usuários acessaram a transmissão, com média de 50 pessoas ligadas ao mesmo tempo, interagindo via chat.

A programação contou com quatro palestras técnicas, que estimularam uma discussão em torno das principais técnicas e tecnologias das silagens de milho e sorgo, além de lançarem um olhar sobre o futuro da atividade leiteira, buscando enxergar soluções para aumentar a produtividade no campo e a rentabilidade do produtor.

 

Fonte: Portal do Agronegócio

Sucessão: Crescimento em família

A sucessão no campo ainda é um tabu para muitos produtores, mas o sucesso dessa transição depende da profissionalização da atividade e da transparência com que pais e filhos tratam o assunto

O produtor Antonio José Freire e seus filhos Enéias (esq.) e Mateus

Foto: Mundo do Leite | O produtor Antonio José Freire e seus filhos Enéias (esq.) e Mateus

Na Fazenda Pérola, em Alpinópolis, MG, os quatros filhos do produtor Antônio José Freire, de 68 anos, se preparam desde a adolescência para assumir os negócios. Atualmente, os homens, Mateus, de 34 anos, e Enéias, de 30 anos, dividem as principais funções da produção. O mais velho toma conta dos animais, da inseminação à ordenha, e o outro cuida da lavoura, para garantir a alimentação do rebanho. E as mulheres, Lilian, de 40 anos, e Helen, de 37, são responsáveis pela parte burocrática e pelo dia a dia do escritório. O pai acompanha tudo de perto, mas garante que dá autonomia para todos cuidarem de suas tarefas.

Para a família, a sucessão do comando dos negócios nunca foi encarada como um problema e sempre foi tratada com naturalidade e transparência. “A atividade leiteira é árdua e complexa, precisa de muita dedicação, pois não temos folga. A gente sempre conversou muito sobre isso. Desde criança, eles me acompanhavam no dia a dia e foram aprendendo sobre tudo na fazenda”, lembra Antônio José.

Ele conta que começou cedo a preparar os filhos para assumirem o negócio da família. E teve sorte de todos terem interesse em continuar a atividade. Isso não os impediu de saírem para estudar fora da cidade. “Um dos meninos começou a faculdade de agronomia e o outro de administração. Nenhum dos dois chegou a se formar, mas eles tiveram essa experiência e voltaram para cá. Eles conhecem bem o negócio e estão preparados para a sucessão”, garante o produtor.

Antonio José, que nasceu na área rural, conta que antes de iniciar a atividade leiteira teve uma empresa de transporte. Mas há 30 anos decidiu voltar para o campo. O negócio começou pequeno, e hoje a família Freire produz 16 mil litros de leite por dia, em cerca de 800 hectares, divididos em oito pequenas propriedades. “A gente vê tanta desavença por aí, herdeiros vendendo as terras, dividindo tudo. Isso torna inviável a produção de leite. Por isso, sinto orgulho dos meus filhos, pois todos tiveram interesse em continuar o negócio da família.”

Infelizmente, o caso da família Freire não é a regra na maioria das propriedades rurais, especialmente as de leite. Estima-se que atualmente existem em torno de 5 milhões de propriedades rurais no País. Mas estudos de instituições agropecuárias indicam que 40% delas devem deixar de operar até 2030. E um dos principais motivos é a sucessão mal feita.

Esse dado é reforçado por recente pesquisa feita no Rio Grande do Sul, salienta Francisco Vila, diretor da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e especialista no assunto. Segundo ele, a pesquisa mostrou que 32% dos produtores rurais gaúchos afirmaram não ter um sucessor para dar continuidade à atividade. “Eu diria ainda que outros 20% que acham que têm sucessor estão enganados”, sentencia Vila. Na atividade leiteira, onde o trabalho é muito mais intensivo, ele acredita que cerca de 50% dos produtores devem deixar a atividade nas próximas duas décadas.

Para o analista da Embrapa Gado de Leite, o agrônomo Fábio Homero Diniz, a primeira questão a ser analisada é a diferença entre sucessão e herança. A herança está relacionada aos bens materiais, no caso das propriedades rurais, basicamente a herança é a terra. Já a sucessão, diz ele, vai além. Envolve a questão cultural, o conhecimento e as habilidades da atividade que passa de geração para geração. “O sucessor recebe mais que a herança. Ele é responsável pela continuidade da atividade da família.”

Nas grandes propriedades, avalia Diniz, o processo de sucessão costuma ser mais tranquilo, pois, além de o negócio ser profissionalizado, a família tem mais suporte e apoio no processo, normalmente por meio de empresas especializadas. Mas como não há programas específicos oferecidos pelas empresas de extensão rural, nas propriedades familiares a transferência da administração da propriedade rural é mais complicada. E esse é justamente o principal perfil do setor de produção de leite.  “Mais de 1 milhão de propriedades leiteiras no Brasil são de produtores familiares”, acrescenta o analista.

Além do perfil familiar, a atividade tem algumas peculiaridades que tornam o processo ainda mais diferenciado. Conforme explica Diniz, o assunto sucessão ainda é um tabu em muitas famílias, pois remete à morte, à substituição do pai. Além disso, normalmente o local de trabalho se confunde com a vida pessoal da família. “Não há separação entre o negócio e o convívio social, o que torna a sucessão mais complexa, especialmente por causa das diferenças entre as gerações.”

Por isso, uma das principais dicas dos especialistas é a comunicação entre os membros da família. “É preciso conversar sobre o assunto, discutir o que cada um pensa sobre o futuro, para evitar conflitos familiares, especialmente quando o patriarca morrer”, orienta Diniz. O diálogo e a transparência são fundamentais para permitir a continuidade da atividade.

Segundo o agrônomo, são dois desafios: para os pais, que querem e imaginam como será o futuro da atividade em que eles trabalharam toda a vida; e para os filhos, que buscam um espaço na propriedade. “São dois pontos de vista diferentes e que precisam ser discutidos. Geralmente a discussão fica somente em cima do filho, mas temos de levar em conta a expectativa dos pais, que, ao passar o comando do negócio para o filho pode sentir o chamado ‘vazio social’, perdendo a identidade na família e na comunidade, e deixando de ser referência”, alerta o analista da Embrapa, reafirmando que é o diálogo pode minimizar essa questão.

Outra dica importante de especialistas é que o processo de sucessão seja em longo prazo, para que não haja esse choque. Não há uma idade indicada. O importante é que o filho, ou os filhos, tenham maturidade para começar a entender o negócio e a ter autonomia para tomar decisões. O envelhecimento da população rural e o êxodo dos mais jovens têm chamado a atenção para o tema da sucessão. E a profissionalização da atividade pode ser um dos caminhos para mantê-los no campo e dar continuidade ao negócio da família.

O sócio-diretor da consultoria Safras & Cifras, o agrônomo e administrador de empresas Sandro Al-Alam Elias, explica que antes de iniciar o processo de sucessão é preciso trabalhar o conceito de transferência da fazenda em empresa, ou seja, profissionalizar a atividade rural. “O desafio é criar um ambiente atrativo para os jovens, para que se interessem pelo negócio e continuem no campo. O filho tem de ter perspectiva de futuro”, destaca. Desta forma, em vez de dividir a propriedade entre os herdeiros, é feita a divisão da participação e função de cada um no negócio.

Elias frisa que, para manter a escala do negócio, é preciso evitar o fracionamento da propriedade e fortalecer a estrutura familiar. Para isso, deve ser organizada a gestão da propriedade, com a adoção de ferramentas gerenciais que definam as relações comerciais entre pais e filhos, que tenham regras com relação à distribuição de resultados, ao montante de investimentos e deliberação de prioridades, à tomada de financiamentos e à participação da família na administração.

“No caso de dois irmãos, por exemplo, em que um trabalha no campo e o outro é médico na cidade, aquele que trabalha na propriedade deve ser remunerado, enquanto o que está fora recebe apenas uma participação. Essa separação ajuda muito no processo de sucessão. É preciso ter regras e direitos claros sobre o papel de cada um”, diz o consultor da Safras & Cifras.

A profissionalização também garantiu o sucesso na sucessão da Fazenda Rhoelandt, em Castro, PR. A administração da empresa já está na segunda geração sob o comando do pecuarista Ronald Rabbers, de 48 anos, e o negócio continua crescendo. A propriedade, de cerca de 100 hectares, produz 11 mil litros de leite/dia. O rebanho, que começou com 60 animais, hoje conta com 800, sendo 300 vacas em lactação, em média. O negócio foi profissionalizado e a empresa é separada das questões particulares da família.

Rabbers conta que seu pai, Lucas (já falecido), descendente de holandeses, veio para o Brasil no início da década de 1950 e iniciou a produção de leite na cidade paranaense. Em 1986, aos 18 anos, o produtor diz que parou de estudar e decidiu trabalhar integralmente na propriedade. “A sucessão no campo é muito natural aqui. Desde criança a gente é criado para dar continuidade aos negócios da família. Foi uma opção minha parar de estudar. Quero que meus filhos tenham uma formação, mas que também deem continuidade ao nosso negócio”, diz o produtor.

No processo de profissionalização da atividade, Rabbers buscou tecnologias para aumentar a produção, sempre com foco no futuro da atividade e da família. Segundo ele, seus filhos – Carolina, de 20 anos, Lucas, de 18, e Hilco, de 12 – já mostram aptidão para dar continuidade à empresa.

“Sempre conversamos muito sobre isso, mas os deixo à vontade para decidir o que fazer. E eles me acompanham nas atividades diárias, já sabem participar da ordenha. O Lucas está cursando veterinária. É um privilégio quando a gente tem a oportunidade de dar continuidade ao negócio da família”, acredita o produtor.

Apesar disso, Rabbers não esconde dos filhos os entraves e as dificuldades da atividade. “É um trabalho árduo, não é brincadeira. Precisa gostar e ter disposição e disponibilidade, porque a produção de leite nos consome 24 horas por dia, todos os dias. Não tem folga. E nem sempre o mercado corresponde. Mas, claro, é uma atividade viável.”

O consultor Elias, da Safras & Cifras, também recomenda que os pais sejam transparentes com os filhos sobre a situação do mercado leiteiro. “O pai tem de incentivar o filho a continuar com a atividade. Não pode apenas reclamar. Como ele quer que o filho dê continuidade ao trabalho se ele só reclama? É preciso passar o lado positivo, pois há muitos. E há muito espaço para a atividade crescer no País, pois o Brasil ainda importa leite em pó, por exemplo.”

Entre os pontos positivos estão fatores como melhor qualidade de vida, autonomia do trabalho e tempo, ser patrão em vez de empregado, além da questão familiar, de dar continuidade ao negócio da família, complementa o analista da Embrapa, Fábio Diniz.

Para o especialista Francisco Vila, da SRB no RS, o principal erro no processo de sucessão rural é não encarar o assunto. A sucessão é um fenômeno inevitável e independente da vontade das pessoas. “Quanto mais cedo e de forma melhor o atual dono coloca essa questão em seu radar estratégico, maior a chance de encontrar uma solução viável”, diz.

O segundo erro, frisa Vila, é escolher a forma e o momento errados para falar sobre o assunto. Sucessão é normalmente confundida com herança e esse termo está psicologicamente vinculado à morte. Sucessão é evoluir. Outro erro crucial, acrescenta, é falar da sucessão, mas não passar responsabilidades e competências para o jovem.

Normalmente, avalia Vila, os pais permanecem com a propriedade legal e exercem pressões psicológicas sobre o sucessor que ainda não é proprietário. Além disso, na maioria dos casos não se definem bem os direitos e obrigações dos outros herdeiros que não estão ou estarão envolvidos na gestão da propriedade. Essa indefinição cria conflitos que afetam negativamente a condução do negócio. Conforme o especialista, atualmente cerca de 20 mil fazendas, acima de mil hectares, passam de pai para filho por ano no Brasil, mas apenas 20% têm sucesso.

Outra conduta usual que Vila considera errada é tratar a sucessão como herança. “Desta forma, tanto o bem quanto a administração deverão ser assumidos pelos herdeiros somente após a morte do proprietário. Contudo, sem a preparação ou definição do gestor, pode ocorrer interesse mútuo em assumir a administração ou o contrário: nenhum deles se interessar em tocar o negócio. Em ambos os casos surgirão desavenças que culminarão com a venda da terra, frequentemente desvalorizada”, alerta.

O agrônomo Carlos Eduardo, da Cooperideal, alerta para outro problema. Segundo ele, no Brasil muitos filhos de produtores rurais deixam o campo por obrigação e não por opção. “Em nossas visitas pelo programa Goiás Mais Leite/ Senar aos produtores de leites, escutamos dos filhos dos produtores que os próprios pais indicam que precisam buscar outro meio de vida, pois a roça não dá para nada. Ou seja, a renda da atividade não é suficiente para sustentar toda a família – no caso de propriedades geridas de maneira inadequada.”

Um diagnóstico realizado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), em 2009, relata dois dados que traduzem esse cenário, destaca Eduardo. O primeiro é a idade média dos produtores entrevistados, de 51 anos, demonstrando uma idade avançada e com baixa reposição. Outro dado e que complementa o anterior é que apenas 42% dos filhos dos produtores querem continuar o negócio da família.

“Avaliando os baixos índices zootécnicos do diagnóstico (lotação de apenas 1,1 unidade animal por hectare (UA/ha); só 59% das vacas produzem ao longo do ano; uma novilha para parir demora 36 meses após o nascimento. Podemos identificar que os resultados econômicos são pífios, ou seja, o principal problema da sucessão familiar na atividade leiteira é a falta de renda e de gestão adequada”, avalia o agrônomo.

Além disso, outros fatores fazem parte do processo, como a falta de tecnologia empregada nas propriedades, maior autonomia e responsabilidade que os pais precisam passar para os filhos e a falta de perfil para o negócio leite. Contudo, estes fatores aparecem com maior ênfase somente quando a propriedade tem condição de fornecer renda suficiente para os anseios da família, caso contrário, a falta de renda aparece como o maior problema da continuação dos filhos na atividade leiteira.”

Mas outro dado é animador e ratifica a importância da assistência técnica aos produtores, pondera Eduardo. “Fizemos um diagnóstico dos produtores assistidos pelo Goiás Mais Leite em propriedades com mais de dois anos de acompanhamento técnico e obtivemos uma surpresa: 75% dos filhos dos produtores querem continuar a atividade leiteira na fazenda, e isso estava em consonância com o aumento de renda proporcionado pelo trabalho técnico realizado, vislumbrando um futuro promissor para os herdeiros.”

Na cooperativa agropecuária Castrolanda, em Castro, PR, o assunto sucessão também é uma preocupação. Segundo a assessora de cooperativismo Rosélia Gomes da Silva, uma das percepções é que os filhos não enxergam o negócio da mesma forma que os pais. E esse conflito acaba gerando entraves na sucessão. “Quando o pai morre, os filhos dividem a propriedade, o que torna inviável a atividade leiteira”, avalia.
Por isso, a cooperativa tem orientado os produtores a olhar para o negócio, ajudando a organizá-lo e administrá-lo com uma gestão planejada. “Não temos um programa específico para sucessão, mas temos algumas ações para os jovens e estamos buscando propostas para os cooperados, pois essa é uma preocupação de todos.”

Uma das ações é o programa Jovem Cooperativista. “É uma oportunidade para os jovens se especializarem e voltarem a trabalhar na atividade leiteira, ou ao menos gerenciá-la, mesmo que de longe”, explica Rosélia.
Há diversos casos de sucessão que deram certo. E o ponto-chave para o sucesso foi a valorização da gestão profissionalizada da atividade. “Além disso, nesses casos percebemos que há uma divisão bem clara das funções entre os herdeiros, e cada um tem consciência do negócio, dos gastos, custos e ganhos. Isso é essencial.”

Dicas para a sucessão

1. O processo deve ser planejado a longo prazo e gradativamente, para evitar choques de gerações e ideias;

2. Desprendimento: o produtor deve ter disposição para se afastar do negócio e confiar nas decisões dos herdeiros. O ideal é que o sucedido reduza o trabalho aos poucos;

3. Os herdeiros devem ter interesse e disponibilidade para assumir o negócio;

4. É preciso haver acordo com toda a família sobre o processo e as definições de funções e participação de cada um no negócio e todos devem aceitar seus papéis;

5. Comunicação: os filhos devem compartilhar com a família seus objetivos de vida e os pais devem deixar claro o que esperam para o futuro;

6. Respeitar a opinião e o ponto de vista do outro;

7. Se possível, conversar com um profissional que possa ajudar no planejamento do processo;

8. Por fim, gestão. Uma propriedade bem gerida e lucrativa atrai os herdeiros a continuar no negócio. Nisso, a assistência técnica é fundamental.

Fonte: Revista Mundo do Leite de out/nov (páginas 18 a 25).

Leite, excelente negócio

Com tecnologia e gestão, pecuária leiteira pode ser comparada e ultrapassar ganhos de várias outras atividades tidas como lucrativas

Fernanda Yoneya
 

Leite, excelente negócio

Foto:Luiz Prado Sistema criado pela Embrapa a é eficiente, simples e barato

Dos 5.570 municípios brasileiros, só 62 não produziram leite em 2014. Das capitais, apenas São Paulo e Belo Horizonte, segundo informações do IBGE. “Isso significa que, na maioria dos municípios do País, o leite é uma das três principais fontes de geração de emprego e renda, fato que levou a um faturamento da cadeia produtiva de lácteos de R$ 76,9 bilhões em 2014. Portanto, 1,4% do PIB”, resume o economista Paulo do Carmo Martins, chefe-geral da Embrapa Gado de Leite. Os números do IBGE e de Martins indicam o alcance da produção de leite no Brasil e trazem um desafio: fazer com que os pecuaristas invistam cada vez mais na gestão do negócio para garantir lucro na atividade. Hoje, porém, uma boa gestão do negócio não se limita a uma administração racional da propriedade – como ter os custos de produção na ponta do lápis –, mas inclui o aperfeiçoamento técnico da atividade a fim de torná-la eficiente.“As propriedades que têm obtido lucro com o leite são aquelas que possuem boa gestão tecnológica e econômico/financeira. Não adianta produzir muito leite, ser eficiente tecnicamente e o produtor não ganhar dinheiro. Indicadores de performance técnica são os meios; o fim é o dinheiro no bolso do produtor com sustentabilidade”, diz o zootecnista Christiano Nascif, que atua como consultor há 20 anos da Labor Rural. Nascif explica que, quando o produtor opera no índice “ótimo econômico” do sistema de produção obtém maior lucro. Mas que nem sempre operar no máximo produtivo da atividade significa ganhar mais dinheiro. “É importante dar prioridade a sistemas flexíveis de produção, que permitem ajustar com maior facilidade e rapidez os custos de produção em relação às receitas.”

Neste caso, é imprescindível ter todos os gastos na ponta do lápis e conhecer profundamente a propriedade e suas condições para ser possível colocar na balança custos e receitas e adaptar um item ao outro. “Sistemas equilibrados entre ótimo econômico e produtivo e flexíveis e a otimização dos fatores de produção, buscando a maior eficiência na utilização da terra, mão de obra e animais são os pilares do sucesso na atividade, isso tendo como pano de fundo uma eficaz gestão técnica e econômico/financeira.”

No caso da pecuária leiteira, os preços do leite em níveis historicamente melhores em 2013 levaram a maiores investimentos na atividade naquele ano. Os reflexos foram sentidos na produção de 2014. Segundo o Índice Scot Consultoria de Captação de Leite, o volume do produto aumentou 10,2% em 2014 em relação a 2013, mas a demanda não cresceu no mesmo ritmo, o que produziu excedentes e pressionou todos os elos da cadeia. “As margens de lucro para o pecuarista se estreitaram. A rentabilidade média da pecuária leiteira de alta tecnologia foi de 7,9% em 2014, frente a 10,1%, em média, em 2013, uma queda de 2,2 pontos porcentuais”, diz o zootecnista Rafael Ribeiro de Lima Filho, consultor de mercado da Scot Consultoria, que desde 1994 acompanha o mercado leiteiro. Apesar da queda, diz o consultor, o resultado foi positivo, superando os investimentos em cadernetas de poupança e arrendamento para a produção cana, por exemplo.

Culturas como soja e milho (anuais), conforme a consultoria, tiveram rentabilidade de 2,5% em 2014; em 2013, ficou em 3,5%. Já a rentabilidade média do arrendamento em regiões de cana caiu de 7,6% em 2013 para 4,5% em 2014. “Prova disso é que o leite tem se destacado em regiões onde a terra está cara e atualmente ocupadas com soja, milho, suinocultura e avicultura”, diz o chefe-geral da Embrapa Gado de Leite. Segundo ele, a atividade leiteira continua crescendo, por exemplo, na região que vai de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, a Cascavel, no Paraná; no Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e leste de Goiás; e na região que sai de Belo Horizonte rumo ao sertão mineiro. O zootecnista Nascif avalia que a atividade tem crescido de forma consciente no Brasil. “Os produtores que estão aumentando o volume de produção estão fazendo isso sobre bases sustentáveis. As vacas dos produtores que estão saindo da atividade não vão para o frigorífico, e sim para a fazenda de outros produtores que têm obtido sucesso na atividade leiteira.”

Ainda segundo a Scot, registraram menor rentabilidade que o leite de alta tecnologia em 2014 atividade de cria com aplicação crescente de tecnologia (2,4%), atividade de ciclo completo com baixa tecnologia (2,3%), atividade de recria e engorda com baixa tecnologia (0,7%) e produção e fornecimento de cana-de-açúcar (-1,4%). Para Rafael Ribeiro, da Scot, o investimento e a aplicação de tecnologia na propriedade buscando a melhoria dos índices produtivos e ganhos em escala têm sido a “chave do sucesso” não só na pecuária de leite. Em 2014, compara Martins, da Embrapa, a inflação oficial acumulada de janeiro a dezembro foi de 6,4%. Nesse período, quem aplicou na bolsa perdeu dinheiro. “Afinal, o Ibovespa, que é a medida da valorização média das ações, teve resultado negativo e foi de -2,9%.” Quem aplicou em poupança também pouco ganhou, pois o rendimento foi de 7,1% no acumulado do ano. Já o dólar e o ouro se valorizaram 12,2% e 12%, respectivamente. “Quem ganhou dinheiro, mesmo, foi quem produziu leite.”

Para comprovar sua “tese”, ele conta que acompanhou o desempenho de produtores ligados à Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais (CCPR)/Itambé e encontrou produtores que conseguiram até 23,8% de retorno sobre o capital investido em 2014. “Tudo isso considerando todos os custos e capital imobilizado, desconsiderando apenas o investido em terra, já que terra é um ativo que se valoriza. Inacreditável esse desempenho. Então, sob a ótica individual, é claro que leite é bom negócio”, afirma. Para se ter ideia da importância de uma boa gestão financeira e tecnológica para o lucro da atividade, a pecuária de leite de baixa tecnologia, ainda segundo levantamento da Scot, deu prejuízo, com rentabilidade negativa de 3,8% em 2014, ante -3% em 2013. “Entre todas analisadas, foi a atividade com o pior desempenho no ano passado.”

O consultor diz que pecuária leiteira de “alta tecnologia” corresponde a uma produção de 25 mil litros/hectare/ano; já a de “baixa tecnologia” consiste em volume de 1.500 litros/hectare/ano. Além disso, contam itens como mão de obra, gestão da propriedade e assistência técnica. O cálculo das rentabilidades médias abrange dados de SP, MG e PR. “Os números mostram a maior capacidade do produtor que trabalha com aplicação crescente de tecnologia em lidar com cenários de crises e quedas nos preços”, diz. “Como qualquer atividade, seja urbana ou rural, há empresários que ganham dinheiro e outros que perdem, portanto há produtores de leite que têm obtido lucro com a atividade leiteira. As comparações entre as rentabilidades de diferentes negócios devem ser feitas considerando os mesmos níveis de eficiência. Deve-se comparar produtores de leite eficientes com os de outras atividades eficientes, e ineficientes com ineficientes”, explica Nascif.

Em média, calcula, considerando só os custos variáveis da atividade, estes estão comprometendo 76% do preço recebido pelo leite. Se forem considerados os custos totais, comprometem 91% do preço recebido pelo leite, segundo o consultor. “Há produtores que têm uma eficiência maior na gestão de custos, onde os custos variáveis comprometem 67% e os custos totais 80% sobre o preço do leite recebido pelo produtor. Obviamente, há produtores que não são eficientes, que comprometem 97% do preço recebido para pagar os custos variáveis; já para os custos totais comprometem 116%, ou seja, estão perdendo dinheiro”, afirma Nascif, citando dados coletados em grupo de 400 produtores participantes do Projeto Educampo, do Sebrae de Minas Gerais, no período de março de 2014 a abril de 2015. O projeto do Sebrae busca, por meio da capacitação gerencial e técnica de produtores rurais, desenvolver aspectos de gestão da propriedade, tornando-os mais eficientes e competitivos.

A análise do custo de produção de leite auxilia na organização e no controle do sistema de produção, permite a análise da rentabilidade e indica custos que podem ser reduzidos. O custo de produção de leite pode ser dividido em variáveis e fixos. Os custos variáveis são aqueles que dependem da quantidade de leite produzida e, se o processo de produção for interrompido, deixam de existir. Por exemplo mão de obra, alimentação do rebanho, reprodução, medicamentos. Já os custos fixos são aqueles independentes da quantidade de leite produzida – depreciação de máquinas, benfeitorias na propriedade, animais, implementos, seguro e impostos.

O consultor destaca ainda a importância da mão de obra como parte da “estratégia” de obter lucro com a atividade leiteira. “Mão de obra é um dos itens que mais pesam no custo de produção. Portanto, aumentar a produtividade da mão de obra é uma saída para diminuir os custos.” Produtores com produtividade da mão de obra baixa, de 286 litros/dia/homem, comprometem 15% da renda bruta da atividade leiteira para pagar funcionários. Já produtores mais eficientes obtêm índices de 390 litros/dia/homem (comprometimento de 11,6% da renda com mão de obra) e até 490 litros/dia/homem (9% de comprometimento da renda com trabalhadores).

“Ter boa gestão na atividade leiteira equivale a saber administrar a sua empresa com sucesso, obtendo lucro com sustentabilidade. E as melhores tecnologias são aquelas que forem mais apropriadas a cada sistema de produção, sempre buscando aumentar a produtividade da terra, da mão de obra e das vacas. Ser eficiente é produzir mais e melhor com menos. Daí, quanto menos capital imobilizado na atividade e mais leite com maior renda, melhor.”

Há três anos na atividade leiteira, o produtor Armando Rabbers, da propriedade Genética ARM, em Castro, PR, diz que só passou a se considerar “realmente um produtor de leite” depois que passou a investir em tecnologia. “Nos tempos de hoje, para termos eficiência de produzir no nosso ramo, é preciso de muita gestão e planejamento, o que fazem a diferença na lucratividade da fazenda. Temos que ter planejamento de quantos hectares precisamos plantar de forragens e escolher as melhores cultivares; montar um cronograma de vacinações e tratamentos, treinar constantemente os colaboradores, pois inovações tecnológicas estão avançando e mudando os conceitos de produzir; e, de forma consciente, saber o que queremos da atividade”, diz o produtor.

Com 135 vacas em lactação, 29 vacas secas e 155 animais jovens, Rabbers obtém, em média, 36,5 litros/vaca, a um custo entre R$ 1,02 e R$ 1,05/litro. “No último mês recebemos R$ 1,10”, conta. A ordenha, 100% mecanizada, tem capacidade de ordenhar 140 vacas por dia. Com experiência na suinocultura – ele produz quase 2.000 suínos de engorda – Rabbers afirma que o segredo para ter lucro no leite é investir em produtividade e, principalmente, em qualidade, o que garante a “bonificação” da cooperativa onde entrega seu produto. “Acredito muito nessa atividade.”

Fonte: Mundo do Leite

É tempo de se planejar

Pecuarista deve saber, na ponta do lápis, como, quando e por que o seu dinheiro está sendo usado

 

Início de ano é época propícia para o produtor de leite planejar atividades da propriedade e definir estratégias a serem adotadas ao longo dos próximos meses. Mas um bom projeto a médio ou longo prazos depende de uma boa organização do pecuarista, principalmente no que se refere a saber “onde se está” e “aonde se quer chegar”. Saber “onde se está”, o primeiro passo de um planejamento estratégico, significa fazer o “inventário” dos recursos disponíveis, isto é, avaliar área disponível, instalações, rebanho (todas as categorias), alimento (pasto, concentrado, Rebanho passa por revisão periódica suplementação), mão de obra e máquinas e equipamentos. Na outra ponta, deve estar a meta pretendida para a propriedade.

 

“Planejar é projetar um trabalho ou serviço, determinar as metas da atividade e avaliar todos os recursos necessários para alcançá-la. Na pecuária leiteira, o primeiro ponto a ser considerado é uma análise detalhada do que realmente se tem ou do que se pretende ter”, afirmam os pesquisadores da Embrapa Gado de Leite Rosangela Zoccal e José Luiz Bellini Leite. “Planejamento requer saber onde se está (inventário da propriedade) e aonde se quer chegar (meta estabelecida). Tendo o ponto de partida (situação atual mostrada no inventário) e o ponto de chegada (situação desejada), um caminho lógico se apresenta”, dizem os pesquisadores.Antes de decidir sobre qualquer mudança, é importante que o produtor tenha em mãos os indicadores de desempenho zootécnico e econômico da atividade, o que se pode conseguir com a prática simples de tomar nota desses dados. Planilhas podem armazenar, de forma organizada, informações sobre os principais indicadores de desempenho zootécnico, como produção diária de leite; número de vacas em lactação e total de vacas; produção por vaca em lactação (litros/vaca em lactação/dia); produtividade da mão de obra (litros/funcionário/dia); produção por área de pastagem (litros/hectare); consumo de concentrado por litro de leite (quilos/litros), além de índice de fertilidade dos animais (do total de fêmeas cobertas, quantas ficam prenhes); índice de natalidade (proporção de bezerros nascidos em relação a fêmeas em produção); taxa de mortalidade e índice de animais descartados.

Entre os produtores, a Embrapa Gado de Leite tem difundido o conceito de gestão como a administração de tudo o que deve ocorrer na propriedade para a realização do que foi planejado. Por isso as anotações das informações zootécnicas e financeiras são fundamentais para se conhecer, administrar e tomar decisões e, nesse caso, a dica dos pesquisadores é procurar a melhor forma possível de fazer essas anotações. “Há vários tipos de planilha que podem ser utilizadas, que são as mais indicadas porque é grande a quantidade de informações que devem ser consideradas em um sistema complexo como a produção de leite. Quanto mais detalhada for a informação, mais fácil de se avaliar a atividade. O importante é anotar os dados de forma correta”, ensinam.

Segundo eles, o ideal é ter um planejamento de médio prazo (três anos), estabelecendo metas, e um de curto prazo (um ano), em que seria detalhado o que será realizado a partir do início do ano para se obter a meta estipulada. “Se o que foi planejado não for realizado, pode-se fazer o mesmo exercício considerando fevereiro como mês de partida e daí projetar os trabalhos, considerando que a atividade leiteira é contínua, não para durante o ano”, recomendam Rosangela e José Luiz.

Uma boa gestão é aquela que contribui para a obtenção das metas estabelecidas e com o menor custo possível. O primeiro passo para isso é ter informação para a tomada de decisão envolvendo índices zootécnicos e econômicos da propriedade e acompanhamento das informações de mercado. No mercado existem programas de informática que ajudam na coleta e organização dos dados.

“Além de produzir bem e com o menor custo possível, é importante lembrar que, como o leite é um produto perecível e de difícil estocagem, o produtor não tem muita margem de negociação no preço de venda, por isso a preocupação de produzir ao menor custo é essencial e, neste ponto, a compra dos insumos em parceria com outros produtores ou em conjunto com cooperativas é favorável.”

Segundo os pesquisadores da Embrapa, o cálculo de quanto custa produzir o leite ajuda a definir as metas e corrigir distorções na propriedade.

Basicamente, o produtor pode trabalhar com três indicadores: renda total; margem bruta e margem líquida ou lucro. A renda total é o valor obtido com a venda do leite, a venda de animais e o esterco. A margem bruta é o valor da receita total menos o custo operacional efetivo (não considera despesas como depreciação de maquinário e equipamentos). “Se o resultado for positivo, significa que o produtor cobre todo o desembolso realizado no período. Pode indicar a sobrevivência, pelo menos a curto prazo. Se o resultado da margem bruta for negativo, a atividade está antieconômica e não paga os gastos realizados”, afirmam os pesquisadores. A margem líquida é a receita total menos o custo operacional total. Se o resultado for positivo, a atividade está estável, com possibilidade de expansão e sobrevivência no longo prazo.

Se for negativo, a condição do produtor é crítica para a sobrevivência no longo prazo, porque não está conseguindo remunerar os custos fixos. Se o resultado for zero, indica que a atividade está no ponto de equilíbrio e em condição de refazer o capital fixo no longo prazo”, dizem os pesquisadores da Embrapa.

Gestão

Critérios como crescimento ou estabilização da fazenda, aumento ou não de pastagens, aquisição de equipamentos e máquinas, melhoria das instalações, descarte ou compra de animais só fazem sentido quando há metas a serem atingidas. De outra forma, afirmam, as decisões tomadas têm como propósito “apagar incêndio” – quando a máquina quebra ou quando as instalações começam a se deteriorar, por exemplo. “A meta para as propriedades produtoras de leite deve ser econômica e, com base nela, projeta-se o que será preciso para alcançá-la, em termos de recursos – animais, terras, mão de obra, máquinas e equipamentos, instalações – necessários.”

Normalmente, o item que representa o maior custo na atividade leiteira é a alimentação do rebanho. Com isso, é imprescindível ter em mãos indicadores que permitam medir a eficiência do sistema de produção, como a taxa de lotação das pastagens, que é resultante do número de vacas em lactação dividido pela área (em hectares) destinada a essa categoria, e a produtividade das pastagens, que é a produção anual de leite em relação à área total do sistema produtivo. “Em muitos casos, o que se precisa é recuperar as pastagens ou realizar uma adubação, e não aumentar a área”, dizem os pesquisadores. Uma dica para evitar gastos desnecessários é buscar uma referência do potencial do solo obtido na região. “A alimentação é o item de maior impacto nos custos da produção de leite. Estabelecer uma estratégia alimentar do rebanho, com orientação técnica competente é o caminho mais adequado.”

Para os pesquisadores da Embrapa, hoje não basta mais os produtores saberem o que acontece “da porteira para dentro”; é fundamental manter-se informado sobre o que acontece “da porteira para fora”. “A demanda e oferta de leite no País e no mundo, o nível de importação e exportação, políticas do governo para o setor… São vários fatores, distantes do dia a dia do produtor, mas que interferem no seu negócio, principalmente no preço do leite. Estar bem informado é condição imperiosa dos dias modernos. Ter acesso e saber utilizar as informações disponíveis é imprescindível. Não se pode tomar decisão sem informação. Ela hoje existe e está disseminada e o produtor deve aprender a acessá-la e selecionar o que é relevante para seu negócio. Informações de conjuntura e a dinâmica da cadeia produtiva do leite devem ser do interesse do produtor profissional.”

“Para administrar uma propriedade leiteira de forma profissional é preciso, em termos de gestão, implementar o ciclo PDCA (Planejamento, Desenvolvimento, Controle e Avaliação). É o ciclo completo da gestão que começa no planejamento e vai até a avaliação e retroalimentação do planejamento do próximo ciclo.”

Com uma experiência de 18 anos de atuação com produtores de leite, o engenheiro agrônomo Lúcio Antonio Oliveira Cunha reforça a importância de se traçarem metas num plano de gestão. “Um bom projeto começa pela meta que se quer alcançar, e que resulta da relação entre o potencial e as limitações da propriedade. A partir daí traçam-se os índices, custos e resultados a serem alcançados. Uma vez apresentado o projeto final, técnico e produtor planejam a obtenção das metas de curto, médio e longo prazos”, afirma Cunha, que é consultor técnico do programa Balde Cheio, da Embrapa Pecuária Sudeste, e coordena o projeto no Espírito Santo. Cerca de 4.000 propriedades em todo o País fazem parte do projeto de transferência de tecnologia que promove o desenvolvimento da pecuária leiteira em pequenas propriedades. Em 2013 o programa Balde Cheio completou 15 anos.

“Quem planeja às vezes erra, quem não planeja às vezes acerta”, costuma dizer Cunha aos produtores de leite com que trabalha. Segundo ele, é a partir do fim de janeiro de cada ano, quando o produtor normalmente fecha o mês de dezembro, que a planilha de custos de todo o ano anterior é completada. Assim, explica o consultor, têm início todas as análises econômicas e administrativas da atividade, com base nos resultados colhidos. “Primeiro analisamos, técnico e produtor, cada item da relação dos gastos operacionais e os confrontamos com sua meta ideal de participação no gasto total. Aí sabemos onde estamos eficientes (dentro ou abaixo das metas) ou ineficientes (acima das metas), definindo estratégias para nos mantermos eficientes onde já somos e alcançarmos a eficiência onde precisamos. Analisamos cada índice agronômico, zootécnico e econômico, buscando entender o porquê de cada índice e comparando com as metas traçadas no início do ano anterior”, explica o agrônomo.

Segundo Cunha, itens como crescimento ou estabilização de pastagens, manutenção ou aquisição de máquinas e melhoria em instalações normalmente estão ligados às metas de investimentos previamente definidas. Já o item descarte ou compra de animais também é influenciado pela distribuição dos partos previstos para ocorrerem ao longo do ano. “Vai depender se os partos estão dentro ou abaixo do esperado. Analisamos ainda o desempenho produtivo e reprodutivo de cada vaca, os índices de eficiência zootécnicos obtidos, como intervalo entre partos. Essa ‘eficiência animal’ pode ser uma importante fonte receita que, eventualmente, pode patrocinar outros gastos estratégicos.”

Na sua vivência no campo, Cunha destaca que é função do produtor fazer as anotações das fichas de campo, com as ocorrências zootécnicas (partos, coberturas, peso leiteiro, nascimentos, pesagem de bezerras e novilhas); econômicas (gastos e receitas), e climáticas (regime de chuvas e temperaturas máximas e mínimas). “Assim podemos preencher as fichas individuais e de acompanhamento do rebanho e as planilhas de custos.”

Toda essa teoria disseminada por pesquisadores e técnicos pode ser vista, na prática, na Fazenda Olhos D’Água, em Liberdade, Minas Gerais. Produtor de leite há 13 anos, João Paulo Varella conta que, antes de tomar qualquer decisão relativa a investimentos na fazenda, analisa de forma minuciosa, primeiro, o potencial de pastagens diante do rebanho atual. “O ponto básico para o planejamento e gestão do negócio é o conhecimento da propriedade”, resume o produtor. “Conhecer a propriedade, saber de tudo o que acontece, é essencial para tomar qualquer decisão, corrigir os erros e melhorar a gestão.”

A Olhos D’Água possui 15 hectares de pastagens divididos em 125 piquetes, compondo 8 módulos, além de 16 hectares de milho para silagem e 0,5 hectare de cana-de-açúcar. O rebanho total é de 164 animais – 82 vacas em lactação produzem, em média, 45.000 litros de leite por mês.
Para se organizar e sistematizar todas as informações da fazenda, Varella utiliza um programa de gerenciamento de rebanho específico para a reprodução e produção de leite. “São controlados ou apontados os eventos reprodutivos e o controle mensal de produção de leite, o que me permite fazer seleção e tomadas de decisão em relação ao arraçoamento (número diário de alimentação) das vacas.” Informações do acompanhamento veterinário na área de reprodução e sanidade também são armazenadas no banco de dados da fazenda.

“Quem tem alimento pode aumentar o rebanho; quem não tem alimento deve diminuir o rebanho. Também devemos analisar se as instalações, máquinas e equipamentos permitem o aumento de produção. Devemos trabalhar para otimizar a produção de alimentos e animais, usando nossas instalações, máquinas e equipamentos. O que mais vejo na prática é excesso de instalações, máquinas e equipamentos e escassez de alimento e animais pouco produtivos”, afirma Varella, que é engenheiro agrônomo e atua como consultor em pecuária de leite e corte.

Os itens mais representativos nos custos de produção de leite são, segundo o produtor, alimentos concentrados (farelos), alimentos volumosos (pastagens e silagens) e mão de obra. “Na compra de alimentos concentrados e insumos agrícolas, ao longo do tempo, desenvolvi parceiros fornecedores que me garantem bons produtos e preços justos com o mercado. Procuro fazer compras estratégicas em épocas de preço interessante.” Para isso, diz ele, o acompanhamento constante do mercado de leite e insumos é fundamental. “A conjuntura é determinante. No meu caso, em épocas de crise me programo para reduzir investimentos em custos fixos, como instalações, máquinas e equipamentos, e aumentar investimentos em fatores produtivos, como alimentos e animais. Sem esquecer de outro item de fundamental importância, escasso e caro: a mão de obra. Temos de investir em pessoas. Pode não ser diretamente em salários, mas em aprendizado e capacitação.

“O que transforma os chamados volumosos em leite são os animais. O bom animal deve exigir nosso maior investimento. E isso só é possível quando temos bom alimento para oferecer a estes animais.” Varella conta que controla os custos de produção por meio de uma planilha da Embrapa Pecuária Sudeste que é usada no programa Balde Cheio.

Valores de referência

Para tomar uma decisão de descarte ou compra de animais, além de considerar indicadores como produtividade por animal, é importante avaliar a composição do rebanho nas diferentes categorias. Alguns valores de referência para os indicadores:

• Porcentual de vacas em lactação: 80%
• Duração da lactação: 300 dias
• Intervalo entre partos: 13 meses
• Taxa de natalidade: 93%
• Vida útil da vaca: 8 anos
• Vida útil do touro: 5 anos
• Número de partos por vaca: 7
• Taxa de reposição: 13%/ano

Projeto estimula produtor a colocar as contas todas no papel

Colocar tudo na ponta do lápis ainda não é um hábito comum aos produtores rurais, segundo o analista de mercado do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP) Wagner Yanaguizawa. Desde 2008, o Cepea, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), estimula a profissionalização da gestão de fazendas leiteiras por meio do levantamento e divulgação de custos de produção de propriedades representativas das regiões pesquisadas. O projeto, chamado de Campo Futuro, já existia para outras cadeias produtivas e foi ampliado para o setor de leite. Até agora, o projeto já passou por 17 Estados, onde “mapeou” cerca de cem regiões leiteiras.

“Em cada encontro do projeto, reunimos produtores, explicamos a diferença entre custos operacionais efetivos, custos operacionais totais e custos totais, apresentamos a eles as planilhas e fazemos em conjunto o preenchimento dos dados, levando em conta aquilo que é consenso entre os participantes de cada encontro. A ideia é conscientizá-los da importância de se ter controle dos custos de todas as etapas da atividade e, com isso, ajudá-los no planejamento”, diz Yanaguizawa. O Cepea recebe a atende a demandas de produtores interessados em receber o Campo Futuro na sua região.

Custo de produção do leite

A análise do custo de produção de leite auxilia na organização e controle do sistema de produção, permite a análise da rentabilidade e indica custos que podem ser reduzidos. O custo de produção de leite pode ser dividido em variáveis e fixos:

• Custos variáveis: dependem da quantidade de leite produzida e, se o processo de produção for interrompido, deixam de existir. Exemplos: mão de obra, alimentação do rebanho, reprodução, medicamentos.

• Custos fixos: são independentes da quantidade de leite produzida. Exemplos: depreciação de máquinas/benfeitorias, animais, implementos, seguro, impostos.

 

Fonte: Mundo do Leite

Pecuaristas de leite apostam em inovação para se adequar ao mercado

Pecuarista deve buscar a excelência na gestão dos seus negócios

MilkDevido ao alto custo com a ração animal e considerando a inflação atual, o pecuarista tende a ter uma rentabilidade reduzida, portanto deve ser inovador buscando alternativas que o ajude a vencer estes obstáculos, principalmente, pelo baixo preço pago ao produtor de leite. Segundo a Scot Consultoria, em setembro, houve uma queda de 0,9% e, considerando a média nacional, o produtor recebeu o valor de R$0,969 por litro. Já o custo de produção da atividade leiteira subiu 1,4% em relação ao mês anterior, na comparação anual o custo foi de 8,8%.

Diante dos aspectos citados, o pecuarista deve buscar a excelência na gestão dos seus negócios para oferecer uma dieta balanceada ao rebanho sem aumentar os gastos. A nutrição é o principal fator que interfere diretamente na produção de leite, reprodução, saúde e bem-estar dos animais.

De acordo com estudos realizados pela Apta (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, 2015), existe uma variedade de insumos que influenciam diretamente no aumento da produção de leite com alto teor de gordura, como as forragens e grãos. Porém, os grãos devem ser fornecidos de forma balanceada para que não haja distúrbios no pH do animal e afetem a digestão da forragem e, consequentemente, diminua a gordura do leite.

Mas, além da alimentação balanceada, para qualificar a produção do rebanho e adequar-se às exigências do mercado é preciso investir em tecnologias de qualidade e priorizar a sustentabilidade. Sem este controle, o negócio tornará inviável economicamente.

Fonte: Meio Rural