O novo empresário rural e o desafio da gestão do negócio

Provável sucessor de um negócio rural: alguma vez você já parou para pensar como seria herdar a gestão de um negócio familiar? O que você faria para dar continuidade ao negócio que o pai construiu e fez crescer? Seguiria fazendo tudo da mesma forma? Isso seria suficiente para levá-lo às próximas gerações?

Absorver a cultura, os valores e o amor pelo negócio criado pelo pai é essencial na etapa da transição. Entretanto, é necessário ter a percepção de que o que funcionou no ano passado até pode funcionar novamente neste ano, mas talvez não funcione no próximo. Assim, o que deu muito certo até hoje na gestão do pai, pode não ser o melhor caminho para os próximos anos. Portanto, é papel do gestor, além de reconhecer todas as coisas boas que ainda podem ser mantidas, repensar decisões anteriormente tomadas, avaliando os melhores caminhos.

Todo o gestor de negócio rural precisa compreender o que é o exercício da gestão. Ele deve estar sempre atento às mudanças de condições nas áreas econômicas, tecnológicas ou climáticas, repensando decisões o tempo todo. Repensar decisões e traçar novos caminhos é um exercício diário da gestão.

Sabe-se que, de forma geral, grande parte do tempo de um gestor é gasto com trabalhos e tarefas de rotinas e, o diferencial está no tempo investido em planejamento.

Podemos classificar as tomadas de decisão em dois tipos: as táticas e as estratégicas. As decisões táticas são aquelas pontuais, de curto prazo, que geralmente dispõe de urgência e são tomadas para que o negócio continue andando. Já as decisões estratégicas são de longo prazo, exigem planejamento e são tomadas para que o negócio prospere.

Nessa linha, podemos dizer que agir de forma tática significa fazer algo corretamente, com eficiência. Já atuar estrategicamente busca a eficácia, fazendo a coisa certa. Em outras palavras, a primeira faz com que o negócio continue andando e a segunda faz com que o negócio cresça e se desenvolva.

Decidir o preço e o momento certo para a venda de um produto são exemplos clássicos de uma decisão tática. Escolher o momento de plantar, colher e/ou vender também são exemplos de decisões táticas, no entanto, mais complexas, pois necessitam de um pouco mais de planejamento.

Traçar regras para as próximas gerações, através de um protocolo familiar; investir no gerenciamento de dados contábeis e financeiros; implantar um processo de governança coorporativa e a sucessão em vida são exemplos de decisões estratégicas. Nestes casos, o planejamento é fundamental. Planejar é buscar uma linha de ação, estabelecendo metas a curto e/ou a longo prazo, tendo “jogo de cintura” e percepção de que às vezes os rumos iniciais podem ser alterados por uma mudança de cenário

Em suma, planejamento não é um ato fixo, imóvel, e sim um conjunto de ações variáveis, que, ainda assim, deve seguir uma sequência lógica para ser eficaz:

1º passo: Identificação da mudança de cenário ou oportunidade de melhoria

2º passo: Traçar uma linha de ação

3º passo: Estabelecer metas de curto e de longo prazo

4º passo: Colocar em prática o que foi planejado

5º passo: Monitorar, acompanhar o andamento

6º passo: Ajustar o que for preciso

7º passo: Voltar ao primeiro passo

Nota-se que o planejamento é periódico. Após o ajuste, surge uma nova ideia, que é novamente colocada em prática, devendo ser sempre acompanhada e ajustada quando o gestor perceber a necessidade.

Diante dessa realidade, o acompanhamento e assessoramento de profissionais multidisciplinares e capacitados nas mais diversas áreas de atuação é de grande valor para o gestor, seja ele o pai preocupado com a sucessão do negócio ou o filho sucessor que assumirá o desafio diário da gestão do negócio rural.

 

Fonte: Destaque Rural

Sucessão: Crescimento em família

A sucessão no campo ainda é um tabu para muitos produtores, mas o sucesso dessa transição depende da profissionalização da atividade e da transparência com que pais e filhos tratam o assunto

O produtor Antonio José Freire e seus filhos Enéias (esq.) e Mateus

Foto: Mundo do Leite | O produtor Antonio José Freire e seus filhos Enéias (esq.) e Mateus

Na Fazenda Pérola, em Alpinópolis, MG, os quatros filhos do produtor Antônio José Freire, de 68 anos, se preparam desde a adolescência para assumir os negócios. Atualmente, os homens, Mateus, de 34 anos, e Enéias, de 30 anos, dividem as principais funções da produção. O mais velho toma conta dos animais, da inseminação à ordenha, e o outro cuida da lavoura, para garantir a alimentação do rebanho. E as mulheres, Lilian, de 40 anos, e Helen, de 37, são responsáveis pela parte burocrática e pelo dia a dia do escritório. O pai acompanha tudo de perto, mas garante que dá autonomia para todos cuidarem de suas tarefas.

Para a família, a sucessão do comando dos negócios nunca foi encarada como um problema e sempre foi tratada com naturalidade e transparência. “A atividade leiteira é árdua e complexa, precisa de muita dedicação, pois não temos folga. A gente sempre conversou muito sobre isso. Desde criança, eles me acompanhavam no dia a dia e foram aprendendo sobre tudo na fazenda”, lembra Antônio José.

Ele conta que começou cedo a preparar os filhos para assumirem o negócio da família. E teve sorte de todos terem interesse em continuar a atividade. Isso não os impediu de saírem para estudar fora da cidade. “Um dos meninos começou a faculdade de agronomia e o outro de administração. Nenhum dos dois chegou a se formar, mas eles tiveram essa experiência e voltaram para cá. Eles conhecem bem o negócio e estão preparados para a sucessão”, garante o produtor.

Antonio José, que nasceu na área rural, conta que antes de iniciar a atividade leiteira teve uma empresa de transporte. Mas há 30 anos decidiu voltar para o campo. O negócio começou pequeno, e hoje a família Freire produz 16 mil litros de leite por dia, em cerca de 800 hectares, divididos em oito pequenas propriedades. “A gente vê tanta desavença por aí, herdeiros vendendo as terras, dividindo tudo. Isso torna inviável a produção de leite. Por isso, sinto orgulho dos meus filhos, pois todos tiveram interesse em continuar o negócio da família.”

Infelizmente, o caso da família Freire não é a regra na maioria das propriedades rurais, especialmente as de leite. Estima-se que atualmente existem em torno de 5 milhões de propriedades rurais no País. Mas estudos de instituições agropecuárias indicam que 40% delas devem deixar de operar até 2030. E um dos principais motivos é a sucessão mal feita.

Esse dado é reforçado por recente pesquisa feita no Rio Grande do Sul, salienta Francisco Vila, diretor da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e especialista no assunto. Segundo ele, a pesquisa mostrou que 32% dos produtores rurais gaúchos afirmaram não ter um sucessor para dar continuidade à atividade. “Eu diria ainda que outros 20% que acham que têm sucessor estão enganados”, sentencia Vila. Na atividade leiteira, onde o trabalho é muito mais intensivo, ele acredita que cerca de 50% dos produtores devem deixar a atividade nas próximas duas décadas.

Para o analista da Embrapa Gado de Leite, o agrônomo Fábio Homero Diniz, a primeira questão a ser analisada é a diferença entre sucessão e herança. A herança está relacionada aos bens materiais, no caso das propriedades rurais, basicamente a herança é a terra. Já a sucessão, diz ele, vai além. Envolve a questão cultural, o conhecimento e as habilidades da atividade que passa de geração para geração. “O sucessor recebe mais que a herança. Ele é responsável pela continuidade da atividade da família.”

Nas grandes propriedades, avalia Diniz, o processo de sucessão costuma ser mais tranquilo, pois, além de o negócio ser profissionalizado, a família tem mais suporte e apoio no processo, normalmente por meio de empresas especializadas. Mas como não há programas específicos oferecidos pelas empresas de extensão rural, nas propriedades familiares a transferência da administração da propriedade rural é mais complicada. E esse é justamente o principal perfil do setor de produção de leite.  “Mais de 1 milhão de propriedades leiteiras no Brasil são de produtores familiares”, acrescenta o analista.

Além do perfil familiar, a atividade tem algumas peculiaridades que tornam o processo ainda mais diferenciado. Conforme explica Diniz, o assunto sucessão ainda é um tabu em muitas famílias, pois remete à morte, à substituição do pai. Além disso, normalmente o local de trabalho se confunde com a vida pessoal da família. “Não há separação entre o negócio e o convívio social, o que torna a sucessão mais complexa, especialmente por causa das diferenças entre as gerações.”

Por isso, uma das principais dicas dos especialistas é a comunicação entre os membros da família. “É preciso conversar sobre o assunto, discutir o que cada um pensa sobre o futuro, para evitar conflitos familiares, especialmente quando o patriarca morrer”, orienta Diniz. O diálogo e a transparência são fundamentais para permitir a continuidade da atividade.

Segundo o agrônomo, são dois desafios: para os pais, que querem e imaginam como será o futuro da atividade em que eles trabalharam toda a vida; e para os filhos, que buscam um espaço na propriedade. “São dois pontos de vista diferentes e que precisam ser discutidos. Geralmente a discussão fica somente em cima do filho, mas temos de levar em conta a expectativa dos pais, que, ao passar o comando do negócio para o filho pode sentir o chamado ‘vazio social’, perdendo a identidade na família e na comunidade, e deixando de ser referência”, alerta o analista da Embrapa, reafirmando que é o diálogo pode minimizar essa questão.

Outra dica importante de especialistas é que o processo de sucessão seja em longo prazo, para que não haja esse choque. Não há uma idade indicada. O importante é que o filho, ou os filhos, tenham maturidade para começar a entender o negócio e a ter autonomia para tomar decisões. O envelhecimento da população rural e o êxodo dos mais jovens têm chamado a atenção para o tema da sucessão. E a profissionalização da atividade pode ser um dos caminhos para mantê-los no campo e dar continuidade ao negócio da família.

O sócio-diretor da consultoria Safras & Cifras, o agrônomo e administrador de empresas Sandro Al-Alam Elias, explica que antes de iniciar o processo de sucessão é preciso trabalhar o conceito de transferência da fazenda em empresa, ou seja, profissionalizar a atividade rural. “O desafio é criar um ambiente atrativo para os jovens, para que se interessem pelo negócio e continuem no campo. O filho tem de ter perspectiva de futuro”, destaca. Desta forma, em vez de dividir a propriedade entre os herdeiros, é feita a divisão da participação e função de cada um no negócio.

Elias frisa que, para manter a escala do negócio, é preciso evitar o fracionamento da propriedade e fortalecer a estrutura familiar. Para isso, deve ser organizada a gestão da propriedade, com a adoção de ferramentas gerenciais que definam as relações comerciais entre pais e filhos, que tenham regras com relação à distribuição de resultados, ao montante de investimentos e deliberação de prioridades, à tomada de financiamentos e à participação da família na administração.

“No caso de dois irmãos, por exemplo, em que um trabalha no campo e o outro é médico na cidade, aquele que trabalha na propriedade deve ser remunerado, enquanto o que está fora recebe apenas uma participação. Essa separação ajuda muito no processo de sucessão. É preciso ter regras e direitos claros sobre o papel de cada um”, diz o consultor da Safras & Cifras.

A profissionalização também garantiu o sucesso na sucessão da Fazenda Rhoelandt, em Castro, PR. A administração da empresa já está na segunda geração sob o comando do pecuarista Ronald Rabbers, de 48 anos, e o negócio continua crescendo. A propriedade, de cerca de 100 hectares, produz 11 mil litros de leite/dia. O rebanho, que começou com 60 animais, hoje conta com 800, sendo 300 vacas em lactação, em média. O negócio foi profissionalizado e a empresa é separada das questões particulares da família.

Rabbers conta que seu pai, Lucas (já falecido), descendente de holandeses, veio para o Brasil no início da década de 1950 e iniciou a produção de leite na cidade paranaense. Em 1986, aos 18 anos, o produtor diz que parou de estudar e decidiu trabalhar integralmente na propriedade. “A sucessão no campo é muito natural aqui. Desde criança a gente é criado para dar continuidade aos negócios da família. Foi uma opção minha parar de estudar. Quero que meus filhos tenham uma formação, mas que também deem continuidade ao nosso negócio”, diz o produtor.

No processo de profissionalização da atividade, Rabbers buscou tecnologias para aumentar a produção, sempre com foco no futuro da atividade e da família. Segundo ele, seus filhos – Carolina, de 20 anos, Lucas, de 18, e Hilco, de 12 – já mostram aptidão para dar continuidade à empresa.

“Sempre conversamos muito sobre isso, mas os deixo à vontade para decidir o que fazer. E eles me acompanham nas atividades diárias, já sabem participar da ordenha. O Lucas está cursando veterinária. É um privilégio quando a gente tem a oportunidade de dar continuidade ao negócio da família”, acredita o produtor.

Apesar disso, Rabbers não esconde dos filhos os entraves e as dificuldades da atividade. “É um trabalho árduo, não é brincadeira. Precisa gostar e ter disposição e disponibilidade, porque a produção de leite nos consome 24 horas por dia, todos os dias. Não tem folga. E nem sempre o mercado corresponde. Mas, claro, é uma atividade viável.”

O consultor Elias, da Safras & Cifras, também recomenda que os pais sejam transparentes com os filhos sobre a situação do mercado leiteiro. “O pai tem de incentivar o filho a continuar com a atividade. Não pode apenas reclamar. Como ele quer que o filho dê continuidade ao trabalho se ele só reclama? É preciso passar o lado positivo, pois há muitos. E há muito espaço para a atividade crescer no País, pois o Brasil ainda importa leite em pó, por exemplo.”

Entre os pontos positivos estão fatores como melhor qualidade de vida, autonomia do trabalho e tempo, ser patrão em vez de empregado, além da questão familiar, de dar continuidade ao negócio da família, complementa o analista da Embrapa, Fábio Diniz.

Para o especialista Francisco Vila, da SRB no RS, o principal erro no processo de sucessão rural é não encarar o assunto. A sucessão é um fenômeno inevitável e independente da vontade das pessoas. “Quanto mais cedo e de forma melhor o atual dono coloca essa questão em seu radar estratégico, maior a chance de encontrar uma solução viável”, diz.

O segundo erro, frisa Vila, é escolher a forma e o momento errados para falar sobre o assunto. Sucessão é normalmente confundida com herança e esse termo está psicologicamente vinculado à morte. Sucessão é evoluir. Outro erro crucial, acrescenta, é falar da sucessão, mas não passar responsabilidades e competências para o jovem.

Normalmente, avalia Vila, os pais permanecem com a propriedade legal e exercem pressões psicológicas sobre o sucessor que ainda não é proprietário. Além disso, na maioria dos casos não se definem bem os direitos e obrigações dos outros herdeiros que não estão ou estarão envolvidos na gestão da propriedade. Essa indefinição cria conflitos que afetam negativamente a condução do negócio. Conforme o especialista, atualmente cerca de 20 mil fazendas, acima de mil hectares, passam de pai para filho por ano no Brasil, mas apenas 20% têm sucesso.

Outra conduta usual que Vila considera errada é tratar a sucessão como herança. “Desta forma, tanto o bem quanto a administração deverão ser assumidos pelos herdeiros somente após a morte do proprietário. Contudo, sem a preparação ou definição do gestor, pode ocorrer interesse mútuo em assumir a administração ou o contrário: nenhum deles se interessar em tocar o negócio. Em ambos os casos surgirão desavenças que culminarão com a venda da terra, frequentemente desvalorizada”, alerta.

O agrônomo Carlos Eduardo, da Cooperideal, alerta para outro problema. Segundo ele, no Brasil muitos filhos de produtores rurais deixam o campo por obrigação e não por opção. “Em nossas visitas pelo programa Goiás Mais Leite/ Senar aos produtores de leites, escutamos dos filhos dos produtores que os próprios pais indicam que precisam buscar outro meio de vida, pois a roça não dá para nada. Ou seja, a renda da atividade não é suficiente para sustentar toda a família – no caso de propriedades geridas de maneira inadequada.”

Um diagnóstico realizado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), em 2009, relata dois dados que traduzem esse cenário, destaca Eduardo. O primeiro é a idade média dos produtores entrevistados, de 51 anos, demonstrando uma idade avançada e com baixa reposição. Outro dado e que complementa o anterior é que apenas 42% dos filhos dos produtores querem continuar o negócio da família.

“Avaliando os baixos índices zootécnicos do diagnóstico (lotação de apenas 1,1 unidade animal por hectare (UA/ha); só 59% das vacas produzem ao longo do ano; uma novilha para parir demora 36 meses após o nascimento. Podemos identificar que os resultados econômicos são pífios, ou seja, o principal problema da sucessão familiar na atividade leiteira é a falta de renda e de gestão adequada”, avalia o agrônomo.

Além disso, outros fatores fazem parte do processo, como a falta de tecnologia empregada nas propriedades, maior autonomia e responsabilidade que os pais precisam passar para os filhos e a falta de perfil para o negócio leite. Contudo, estes fatores aparecem com maior ênfase somente quando a propriedade tem condição de fornecer renda suficiente para os anseios da família, caso contrário, a falta de renda aparece como o maior problema da continuação dos filhos na atividade leiteira.”

Mas outro dado é animador e ratifica a importância da assistência técnica aos produtores, pondera Eduardo. “Fizemos um diagnóstico dos produtores assistidos pelo Goiás Mais Leite em propriedades com mais de dois anos de acompanhamento técnico e obtivemos uma surpresa: 75% dos filhos dos produtores querem continuar a atividade leiteira na fazenda, e isso estava em consonância com o aumento de renda proporcionado pelo trabalho técnico realizado, vislumbrando um futuro promissor para os herdeiros.”

Na cooperativa agropecuária Castrolanda, em Castro, PR, o assunto sucessão também é uma preocupação. Segundo a assessora de cooperativismo Rosélia Gomes da Silva, uma das percepções é que os filhos não enxergam o negócio da mesma forma que os pais. E esse conflito acaba gerando entraves na sucessão. “Quando o pai morre, os filhos dividem a propriedade, o que torna inviável a atividade leiteira”, avalia.
Por isso, a cooperativa tem orientado os produtores a olhar para o negócio, ajudando a organizá-lo e administrá-lo com uma gestão planejada. “Não temos um programa específico para sucessão, mas temos algumas ações para os jovens e estamos buscando propostas para os cooperados, pois essa é uma preocupação de todos.”

Uma das ações é o programa Jovem Cooperativista. “É uma oportunidade para os jovens se especializarem e voltarem a trabalhar na atividade leiteira, ou ao menos gerenciá-la, mesmo que de longe”, explica Rosélia.
Há diversos casos de sucessão que deram certo. E o ponto-chave para o sucesso foi a valorização da gestão profissionalizada da atividade. “Além disso, nesses casos percebemos que há uma divisão bem clara das funções entre os herdeiros, e cada um tem consciência do negócio, dos gastos, custos e ganhos. Isso é essencial.”

Dicas para a sucessão

1. O processo deve ser planejado a longo prazo e gradativamente, para evitar choques de gerações e ideias;

2. Desprendimento: o produtor deve ter disposição para se afastar do negócio e confiar nas decisões dos herdeiros. O ideal é que o sucedido reduza o trabalho aos poucos;

3. Os herdeiros devem ter interesse e disponibilidade para assumir o negócio;

4. É preciso haver acordo com toda a família sobre o processo e as definições de funções e participação de cada um no negócio e todos devem aceitar seus papéis;

5. Comunicação: os filhos devem compartilhar com a família seus objetivos de vida e os pais devem deixar claro o que esperam para o futuro;

6. Respeitar a opinião e o ponto de vista do outro;

7. Se possível, conversar com um profissional que possa ajudar no planejamento do processo;

8. Por fim, gestão. Uma propriedade bem gerida e lucrativa atrai os herdeiros a continuar no negócio. Nisso, a assistência técnica é fundamental.

Fonte: Revista Mundo do Leite de out/nov (páginas 18 a 25).

Leite, excelente negócio

Com tecnologia e gestão, pecuária leiteira pode ser comparada e ultrapassar ganhos de várias outras atividades tidas como lucrativas

Fernanda Yoneya
 

Leite, excelente negócio

Foto:Luiz Prado Sistema criado pela Embrapa a é eficiente, simples e barato

Dos 5.570 municípios brasileiros, só 62 não produziram leite em 2014. Das capitais, apenas São Paulo e Belo Horizonte, segundo informações do IBGE. “Isso significa que, na maioria dos municípios do País, o leite é uma das três principais fontes de geração de emprego e renda, fato que levou a um faturamento da cadeia produtiva de lácteos de R$ 76,9 bilhões em 2014. Portanto, 1,4% do PIB”, resume o economista Paulo do Carmo Martins, chefe-geral da Embrapa Gado de Leite. Os números do IBGE e de Martins indicam o alcance da produção de leite no Brasil e trazem um desafio: fazer com que os pecuaristas invistam cada vez mais na gestão do negócio para garantir lucro na atividade. Hoje, porém, uma boa gestão do negócio não se limita a uma administração racional da propriedade – como ter os custos de produção na ponta do lápis –, mas inclui o aperfeiçoamento técnico da atividade a fim de torná-la eficiente.“As propriedades que têm obtido lucro com o leite são aquelas que possuem boa gestão tecnológica e econômico/financeira. Não adianta produzir muito leite, ser eficiente tecnicamente e o produtor não ganhar dinheiro. Indicadores de performance técnica são os meios; o fim é o dinheiro no bolso do produtor com sustentabilidade”, diz o zootecnista Christiano Nascif, que atua como consultor há 20 anos da Labor Rural. Nascif explica que, quando o produtor opera no índice “ótimo econômico” do sistema de produção obtém maior lucro. Mas que nem sempre operar no máximo produtivo da atividade significa ganhar mais dinheiro. “É importante dar prioridade a sistemas flexíveis de produção, que permitem ajustar com maior facilidade e rapidez os custos de produção em relação às receitas.”

Neste caso, é imprescindível ter todos os gastos na ponta do lápis e conhecer profundamente a propriedade e suas condições para ser possível colocar na balança custos e receitas e adaptar um item ao outro. “Sistemas equilibrados entre ótimo econômico e produtivo e flexíveis e a otimização dos fatores de produção, buscando a maior eficiência na utilização da terra, mão de obra e animais são os pilares do sucesso na atividade, isso tendo como pano de fundo uma eficaz gestão técnica e econômico/financeira.”

No caso da pecuária leiteira, os preços do leite em níveis historicamente melhores em 2013 levaram a maiores investimentos na atividade naquele ano. Os reflexos foram sentidos na produção de 2014. Segundo o Índice Scot Consultoria de Captação de Leite, o volume do produto aumentou 10,2% em 2014 em relação a 2013, mas a demanda não cresceu no mesmo ritmo, o que produziu excedentes e pressionou todos os elos da cadeia. “As margens de lucro para o pecuarista se estreitaram. A rentabilidade média da pecuária leiteira de alta tecnologia foi de 7,9% em 2014, frente a 10,1%, em média, em 2013, uma queda de 2,2 pontos porcentuais”, diz o zootecnista Rafael Ribeiro de Lima Filho, consultor de mercado da Scot Consultoria, que desde 1994 acompanha o mercado leiteiro. Apesar da queda, diz o consultor, o resultado foi positivo, superando os investimentos em cadernetas de poupança e arrendamento para a produção cana, por exemplo.

Culturas como soja e milho (anuais), conforme a consultoria, tiveram rentabilidade de 2,5% em 2014; em 2013, ficou em 3,5%. Já a rentabilidade média do arrendamento em regiões de cana caiu de 7,6% em 2013 para 4,5% em 2014. “Prova disso é que o leite tem se destacado em regiões onde a terra está cara e atualmente ocupadas com soja, milho, suinocultura e avicultura”, diz o chefe-geral da Embrapa Gado de Leite. Segundo ele, a atividade leiteira continua crescendo, por exemplo, na região que vai de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, a Cascavel, no Paraná; no Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e leste de Goiás; e na região que sai de Belo Horizonte rumo ao sertão mineiro. O zootecnista Nascif avalia que a atividade tem crescido de forma consciente no Brasil. “Os produtores que estão aumentando o volume de produção estão fazendo isso sobre bases sustentáveis. As vacas dos produtores que estão saindo da atividade não vão para o frigorífico, e sim para a fazenda de outros produtores que têm obtido sucesso na atividade leiteira.”

Ainda segundo a Scot, registraram menor rentabilidade que o leite de alta tecnologia em 2014 atividade de cria com aplicação crescente de tecnologia (2,4%), atividade de ciclo completo com baixa tecnologia (2,3%), atividade de recria e engorda com baixa tecnologia (0,7%) e produção e fornecimento de cana-de-açúcar (-1,4%). Para Rafael Ribeiro, da Scot, o investimento e a aplicação de tecnologia na propriedade buscando a melhoria dos índices produtivos e ganhos em escala têm sido a “chave do sucesso” não só na pecuária de leite. Em 2014, compara Martins, da Embrapa, a inflação oficial acumulada de janeiro a dezembro foi de 6,4%. Nesse período, quem aplicou na bolsa perdeu dinheiro. “Afinal, o Ibovespa, que é a medida da valorização média das ações, teve resultado negativo e foi de -2,9%.” Quem aplicou em poupança também pouco ganhou, pois o rendimento foi de 7,1% no acumulado do ano. Já o dólar e o ouro se valorizaram 12,2% e 12%, respectivamente. “Quem ganhou dinheiro, mesmo, foi quem produziu leite.”

Para comprovar sua “tese”, ele conta que acompanhou o desempenho de produtores ligados à Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais (CCPR)/Itambé e encontrou produtores que conseguiram até 23,8% de retorno sobre o capital investido em 2014. “Tudo isso considerando todos os custos e capital imobilizado, desconsiderando apenas o investido em terra, já que terra é um ativo que se valoriza. Inacreditável esse desempenho. Então, sob a ótica individual, é claro que leite é bom negócio”, afirma. Para se ter ideia da importância de uma boa gestão financeira e tecnológica para o lucro da atividade, a pecuária de leite de baixa tecnologia, ainda segundo levantamento da Scot, deu prejuízo, com rentabilidade negativa de 3,8% em 2014, ante -3% em 2013. “Entre todas analisadas, foi a atividade com o pior desempenho no ano passado.”

O consultor diz que pecuária leiteira de “alta tecnologia” corresponde a uma produção de 25 mil litros/hectare/ano; já a de “baixa tecnologia” consiste em volume de 1.500 litros/hectare/ano. Além disso, contam itens como mão de obra, gestão da propriedade e assistência técnica. O cálculo das rentabilidades médias abrange dados de SP, MG e PR. “Os números mostram a maior capacidade do produtor que trabalha com aplicação crescente de tecnologia em lidar com cenários de crises e quedas nos preços”, diz. “Como qualquer atividade, seja urbana ou rural, há empresários que ganham dinheiro e outros que perdem, portanto há produtores de leite que têm obtido lucro com a atividade leiteira. As comparações entre as rentabilidades de diferentes negócios devem ser feitas considerando os mesmos níveis de eficiência. Deve-se comparar produtores de leite eficientes com os de outras atividades eficientes, e ineficientes com ineficientes”, explica Nascif.

Em média, calcula, considerando só os custos variáveis da atividade, estes estão comprometendo 76% do preço recebido pelo leite. Se forem considerados os custos totais, comprometem 91% do preço recebido pelo leite, segundo o consultor. “Há produtores que têm uma eficiência maior na gestão de custos, onde os custos variáveis comprometem 67% e os custos totais 80% sobre o preço do leite recebido pelo produtor. Obviamente, há produtores que não são eficientes, que comprometem 97% do preço recebido para pagar os custos variáveis; já para os custos totais comprometem 116%, ou seja, estão perdendo dinheiro”, afirma Nascif, citando dados coletados em grupo de 400 produtores participantes do Projeto Educampo, do Sebrae de Minas Gerais, no período de março de 2014 a abril de 2015. O projeto do Sebrae busca, por meio da capacitação gerencial e técnica de produtores rurais, desenvolver aspectos de gestão da propriedade, tornando-os mais eficientes e competitivos.

A análise do custo de produção de leite auxilia na organização e no controle do sistema de produção, permite a análise da rentabilidade e indica custos que podem ser reduzidos. O custo de produção de leite pode ser dividido em variáveis e fixos. Os custos variáveis são aqueles que dependem da quantidade de leite produzida e, se o processo de produção for interrompido, deixam de existir. Por exemplo mão de obra, alimentação do rebanho, reprodução, medicamentos. Já os custos fixos são aqueles independentes da quantidade de leite produzida – depreciação de máquinas, benfeitorias na propriedade, animais, implementos, seguro e impostos.

O consultor destaca ainda a importância da mão de obra como parte da “estratégia” de obter lucro com a atividade leiteira. “Mão de obra é um dos itens que mais pesam no custo de produção. Portanto, aumentar a produtividade da mão de obra é uma saída para diminuir os custos.” Produtores com produtividade da mão de obra baixa, de 286 litros/dia/homem, comprometem 15% da renda bruta da atividade leiteira para pagar funcionários. Já produtores mais eficientes obtêm índices de 390 litros/dia/homem (comprometimento de 11,6% da renda com mão de obra) e até 490 litros/dia/homem (9% de comprometimento da renda com trabalhadores).

“Ter boa gestão na atividade leiteira equivale a saber administrar a sua empresa com sucesso, obtendo lucro com sustentabilidade. E as melhores tecnologias são aquelas que forem mais apropriadas a cada sistema de produção, sempre buscando aumentar a produtividade da terra, da mão de obra e das vacas. Ser eficiente é produzir mais e melhor com menos. Daí, quanto menos capital imobilizado na atividade e mais leite com maior renda, melhor.”

Há três anos na atividade leiteira, o produtor Armando Rabbers, da propriedade Genética ARM, em Castro, PR, diz que só passou a se considerar “realmente um produtor de leite” depois que passou a investir em tecnologia. “Nos tempos de hoje, para termos eficiência de produzir no nosso ramo, é preciso de muita gestão e planejamento, o que fazem a diferença na lucratividade da fazenda. Temos que ter planejamento de quantos hectares precisamos plantar de forragens e escolher as melhores cultivares; montar um cronograma de vacinações e tratamentos, treinar constantemente os colaboradores, pois inovações tecnológicas estão avançando e mudando os conceitos de produzir; e, de forma consciente, saber o que queremos da atividade”, diz o produtor.

Com 135 vacas em lactação, 29 vacas secas e 155 animais jovens, Rabbers obtém, em média, 36,5 litros/vaca, a um custo entre R$ 1,02 e R$ 1,05/litro. “No último mês recebemos R$ 1,10”, conta. A ordenha, 100% mecanizada, tem capacidade de ordenhar 140 vacas por dia. Com experiência na suinocultura – ele produz quase 2.000 suínos de engorda – Rabbers afirma que o segredo para ter lucro no leite é investir em produtividade e, principalmente, em qualidade, o que garante a “bonificação” da cooperativa onde entrega seu produto. “Acredito muito nessa atividade.”

Fonte: Mundo do Leite

Tecnologia retém produtor no campo

Acesso a software aplicado em mais de 200 propriedades influenciou opção pelo campo.

Após identificar a gestão como uma das principais necessidades da atividade leiteira, o estudante Dionatan Hamester, 23 anos, desenvolveu uma ferramenta para ajudar o produtor a tomar decisões. Foi assim que nasceu, há cinco anos, a Control Milk, uma startup com sede em Teutônia que fornece relatórios zootécnicos, financeiros e gráficos da criação e ordenha. O sistema usa dados históricos, avalia padrões de produção, detecta problemas a serem resolvidos preventivamente e apontando datas corretas para reprodução, alertando o produtor para não esquecer do período recomendado.

Graduando em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela Univates e sem ligação com o campo, Hamester uniu-se ao sócio Vilson Mayer, formado em Ciências Agrárias, para criar o programa, que hoje está em mais de 200 propriedades dos três estados da região Sul e na Bahia. A ferramenta também tem despertado o interesse de cooperativas que podem fazer a tecnologia chegar à propriedade rural.

Usuário do software, o produtor de leite, Diego Dickel, 22 anos, de Teutônia, afirma que a possibilidade de acesso à tecnologia na propriedade pesou na opção que fez por permanecer no campo. “Consigo ver exatamente o período de lactação e verificar bem a previsão de parto, por exemplo”, explica.

Família Dickel, de Teutônia, utiliza aplicativo para controlar custos e sanidade.

Família Dickel, de Teutônia, utiliza aplicativo para controlar custos e sanidade.

 

Fonte: Correio do Povo Rural – Domigo, 6 de Dezembro de 2015. Edição: 1690


A Control Milk – Tecnologia e Informação, parabeniza o trabalho realizado pela família Dickel.

Startup de Teutônia cria sistema para melhorar gestão de produtores de leite

Melhorar a qualidade do leite e aperfeiçoar a gestão das propriedades produtoras são os principais objetivos da Control Milk, startup sediada em Teutônia, no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul. Operando desde 2012, a empresa desenvolveu um sistema gerencial integrado que facilita a coleta de dados por cooperativas e cooperativados, permitindo o acompanhamento do desempenho zootécnico e financeiro das propriedades leiteiras.

Control Milk startup teutônia RS (Foto: Control Milk/Reprodução)

Ferramenta web traz gráficos sobre produção do rebanho (Foto: Control Milk/Reprodução)

Presente em fazendas nos três estados da região Sul do Brasil e na Bahia, a Control Milk também pretende fomentar a sucessão familiar. Com filhos e netos de produtores indo para a cidade atrás de estudo, muitos optam por não voltar. Mas a mudança desse cenário também exige uma outra visão da parte de quem trabalha no campo, afirma Dionatan Hamester, 23 anos, sócio da startup. Ao lado dele, está o engenheiro agrônomo Vilson Roque Mayer, com mais de 17 anos de experiência na área.

“Ainda existe a mentalidade de que quem fica sentado no computador fazendo a gestão da propriedade não trabalha, é vagabundo. Mas não é. Uma boa gestão identifica gargalos da produção e aumenta a lucratividade”, explica o estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Para incentivar os jovens a tocarem as fazendas, a empresa trabalha em parceria com a cooperativa gaúcha Languiru, onde busca “provar que a produção familiar é uma atividade rentável, se gerida adequadamente”, complementa.

Benefícios nas duas pontas
Talvez o principal problema das propriedades seja o amadorismo da gestão, geralmente feita em cadernos ou em planilhas de Excel. A dificuldade se dá no cruzamento dos dados. Com as ferramentas da Control Milk, o produtor tem acesso a relatórios que avaliam essas informações. “O sistema faz a gestão zootécnica, indicando quando fazer a reprodução. Faz também a gestão sanitária, apontando a época das vacinações obrigatórias”.

Control Milk startup teutônia app aplicativo RS (Foto: Control Milk/Reprodução)

Control Milk também tem app para dispositivos móveis (Foto: Control Milk/Reprodução)

A organização desses dados gera ganhos financeiros, garante Hamester. “As propriedades leiteiras costumam ter outra produção, como aves, suínos ou lavoura, mas não fazem a divisão de custos de cada ramo. Nossas ferramentas melhoram a tomada de decisões”, garante.

Para as cooperativas, fica mais fácil cruzar dados e, então, constatar quais cooperados têm mais qualidade e que regiões produzem mais e melhor. Assim, elas podem identificar e auxiliar rapidamente quem está com problemas.

Como o sinal de internet nem sempre é bom nas zonas rurais brasileiras, a reunião dos dados eventualmente necessita de uma coleta direta. “O aplicativo funciona offline. Nesse caso, a cooperativa visita o cooperado e pega os dados do computador com um pendrive. Se a propriedade tiver internet, o produtor pode enviá-los”, explica Hamester.

Fonte: G1 – Novos Futuros